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Blog do Dr. Valdinar M. de Souza
 


Uma crônica da crônica

Era 10 de junho de 2014, verão para nós, e eu acordei cedo. Antes mesmo de escovar os dentes, fui ver os passarinhos (os bem-te-vis e as fogo-pagou), que esvoaçavam e cantavam alegremente nas árvores do meu quintal. Extasiado com a beleza da manhã e envolto em lembranças da minha infância, adolescência e juventude na roça, filmei, fotografei e depois escrevi uma crônica, à qual dei o título “Manhã de sol e lembranças”. 

Enviei a crônica para o portal (En)Cena, onde foi publicada em 7 de setembro de 2014. O (En)Cena é um projeto muito bonito do Centro Universitário Luterano de Palmas (CEULP) da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), cuja seção Escritos se propõe a registrar, mediante a publicação de poemas, crônicas, contos e assim por diante, o flerte entre a existência e as palavras, ou, ainda, entre a literatura e a loucura. “A literatura e a loucura enamoram-se”, dizem eles. 

Pois bem. Eu revisito minha produção, meus escritos. Já vi alguém dizer que não gosta de rever o que escreveu. Eu, ao contrário disso, gosto de revisitar minha produção, minhas insignificâncias literárias. Assim, hoje, 9 de janeiro de 2018, o fiz. Acessei o (En)Cena, reli a crônica e, julgando oportuno, pincei um trecho para publicação no Facebook, este: “A vida passa e a fila anda, em todos os sentidos. A perecibilidade assusta, confunde e amedronta.” 

Postado o texto no Facebook, logo vieram as reações: comentários dos amigos Erisval Moura e Mary Alexandra, além das curtidas de vários outros amigos internautas. Caramba, eu amo o Facebook exatamente por isto: é vivo e há sempre e prontamente o feedback. O Facebook é o bicho que mordeu a goiaba, porque é vivo e, vivo, reage. É por isso que sou um entusiasta da ciência e da tecnologia. 

Eles comentaram o texto e eu logo os remeti, com alegria, ao (En)Cena, para a leitura de “Manhã de sol e lembranças”. A internet, fruto da ciência e da tecnologia modernas, assombrosamente nos permite isso e muito mais, que bacana! E os comentários deles, imediatamente à leitura, mexeram comigo, me deixaram feliz ao ponto de querer registrar tudo, como registro agora, em mais uma crônica. 

Meus textos, mais do que tudo, são isto: eu vivo e registro momentos. Penso que vem daí o meu gosto pela já mencionada revisitação do que produzo. Revivo na releitura das minhas crônicas os momentos que nelas registrei. Eis também, penso, a razão por que tanto amo fotografar. Se eu não fosse advogado, seria certamente fotógrafo. Tenho paixão (Platão diria que tenho amor) por fotografia. 

Erisval, no Messenger, em resumo, disse (aliás, mais do que isso, escreveu): “Já li a crônica ‘Manhã de sol....’.  Bucolismo e depois uma profissão de fé.” A Mary Alexandra, também no Messenger, depois de transcrever todo o último parágrafo da crônica, fisgou-me, dizendo: “Conversar com você é pausar e pensar.” Como deixar de cronicar e registrar tudo isso? Não, não poderia. Jamais! Para muitos isso é tolice, para mim, contudo, é algo inestimável. Puxa vida, ganhei o dia!



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 00h51
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Homenagem Póstuma ao Amigo Antônio Sebastião Arenhart

Às 14h47 de hoje, 13 de dezembro de 2017, tomei conhecimento, pelo Messenger, aplicativo do Facebook, do falecimento do meu amigo Dr. Antônio Sebastião Arenhart, que assinava sempre Antônio S. Arenhart. Era advogado, contabilista e professor, inteligente, estudioso, honesto e muito trabalhador.

 

Foi o Cicero Cleuto Abreu Oliveira, meu primo por afinidade, quem me avisou. Lacônica, dizia a mensagem: “Boa tarde... Comunico o falecimento do Dr. Antônio.” O Cicero, também seu amigo, sabia da minha estima por ele, motivo por que logo se lembrou de me avisar.

 

Conheci o Dr. Antônio S. Arenhart, em janeiro de 1981, quando eu trabalhava com o meu tio materno Hiram Monteiro da Silva, no Posto Fiscal Estadual de Xinguara. Ele fora, como contabilista, ao posto fiscal, pegar um talão de Documento de Arrecadação Estadual (DAE), ocasião em que o atendi. E nasceu daí a nossa grande e duradoura amizade.

 

Dr. Antônio Arenhart, aliás, foi o primeiro advogado com quem tive contato na vida, razão por que – tal qual o Dr. Flávio Vicente Guimarães, que eu conheceria anos depois, em 1985, e também se tornaria meu grande amigo, além de irmão de ideal maçônico – muito influenciou na minha decisão pelo curso de Direito, já que eu hesitava entre decidir-me pela Contabilidade ou pelo Direito.

 

Anos depois – em 1995, para ser exato –, ele seria meu professor no primeiro ano do curso técnico de Contabilidade, meu segundo curso de ensino médio. Sempre me admirou e respeitou muito. Dizia que eu era um aluno que sabia mais do que o professor e, por isso, ele não sabia a razão por que eu estava ali estudando. Já falei da nossa amizade e desse elogio na crônica Viagens e leituras ou releituras, escrita e publicada em 18 de maio de 2013.

 

Pois bem. Morando eu em Marabá e ele em Xinguara, há anos não nos víamos, a despeito da amizade sincera que nos ligava. A última vez em que o vi, foi no dia 31 de março de 2012, em Xinguara, encontro ao qual me refiro na já citada crônica Viagens e leituras ou releituras.

 

Que pena! Hoje, de madrugada, ele nos deixou a nós todos, seus parentes, amigos, ex-alunos e colegas de profissão. É, assim, mais uma pessoa de Xinguara a quem eu muito estimava que parte para a eternidade! E – o que me aumenta sobremaneira a tristeza –, por motivos alheios à minha vontade, não lhe poderei prestar a última homenagem de corpo presente, participando do velório e do sepultamento.

 

Assim, para encerrar esta crônica de singela homenagem póstuma ao meu amigo, faço minhas as palavras de Críton, no Fédon, sobre a morte de Sócrates: “Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era sua desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado” (PLATÃO, Fédon, 117c). 

 

Adeus, amigo!



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 02h20
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Henri Burin des Roziers, Um Francês Também Brasileiro e Pai dos Pobres

Morreu hoje, dia 26 de novembro de 2017, na França, Frei Henri Burin des Roziers, grande homem dedicado à causa dos pobres. Era francês, naturalizado brasileiro, doutor em Direito e sacerdote católico apostólico romano. Militou durante muitos anos em Xinguara e região, como advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT). 

Não tinha intimidade com ele. Estive com Frei Henri apenas uma vez, quando eu ainda era acadêmico de Direito, na Universidade Federal do Pará, quase no fim do curso. Foi no ano de 2000 ou 2001, por aí assim, no encontro da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP), no Itacauinas Hotel, Marabá, Estado do Pará, encontro do qual participaram também meus colegas de Direito José Batista Gonçalves Afonso e Valdimar Lopes Barros. 

Participativo e muito carismático, Frei Henri encantava a todos os presentes com a sua simplicidade e o jeito de falar, num sotaque, a meu ver, mais para inglês do que para francês. Lembro-me dele, por exemplo, pronunciando a expressão “cemitério clandestino”. Pronunciava o “r” na forma da pronúncia inglesa e punha a sílaba tônica de “clandestino” no “é”, ficando: “clandéstino”. Guardo dele boa lembrança e lamento por sua morte. 

Tenho um livro de autoria dele, que tentei encontrar rapidamente, aqui agora, na bagunça a que denomino biblioteca. Infelizmente não o encontrei, faz anos que o li e a coisa aqui está deveras bagunçada: livros pelo chão, em cima da mesa, nas prateleiras, dentro de caixas e até em cima do sofá. Como estava com pressa para escrever, embora sabendo onde está, não quis remover caixas, livros, jornais e revistas para, enfim, alcançá-lo.

Fica aqui registrado o meu sentimento de perda e a minha solidariedade aos que com ele viveram e conviveram e, por isso, estão de luto. Meus pêsames, minhas condolências! Frei Henri, religioso que era, não teve filhos biológicos, mas seu desenlace deixa muitos órfãos no Brasil. Era, pelo que sei, um pai dos pobres e perseguidos, ao lado dos quais sempre se posicionou na luta contra os poderosos latifundiários da região. 

Encerro esta crônica, em homenagem a Frei Henri, com estas palavras, que me parecem propícias para expressar sua luta vida afora: “E as mesmas coisas, como disseste, uns consideram justas, outros injustas, sendo essa a diferença de opinião que faz nascer entre eles a discórdia e as guerras, não é assim?” (PLATÃO, Eutífrone, 8-a). Para ele, mais do que ninguém, a causa dos pobres era justa.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 01h25
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NÃO, NÃO É PORTUGUÊS

Tenho lido com muita frequência – principalmente no Facebook e no WhatsApp – erros grosseiros como sair, em vez de saí; sentir, em vez de senti, estar, em vez de está, e por aí vai, verdadeiras aberrações cometidas contra a língua portuguesa por pessoas que se dizem professores, professoras ou, ainda, outros tipos de falantes do português com formação superior.


Faz vergonha, para dizer o mínimo. Como diriam os Professores Antônio Cruz Neto e Wilson D’Angelo Braz, autores de Tudo sobre análise sintática, tais erros, de tão grosseiros que são, não condizem com o brilho ofuscante de anéis de grau.


Tais professores e demais utentes do português confundem, grosseiramente, o infinitivo do verbo com outras formas, com o pretérito perfeito (no caso de sair, por saí e sentir, por senti) e com o presente do indicativo (estar, por está). Ora, não se diz nem escreve “o aluno chegou e estar na sala”, mas, sim, “o aluno chegou e está na sala”. Tampouco se diz ou escreve, por exemplo, “eu já sair de casa”, mas “eu já saí de casa”, e assim por diante.


Que vergonha! Gente, que vergonha! Não precisa ter nível superior para saber que tais formas estão, grotescamente, erradas. Não, não é preciso. O aluno aprende a conjugar os verbos (e, por conseguinte, diferenciar o infinitivo de outras formas verbais) já no ensino fundamental. Basta estudar com atenção.


Isso, porém, não é tudo. O pior mesmo, o cúmulo do absurdo é quando escrevem, por exemplo, recebir, em vez de recebi; nascir, em vez de nasci; comir, em vez de comi. Hoje mesmo eu li essa aberração. Gente, que que é isso? Que que é isso, caramba?... Recebir, comir e nascir não existem em português! Que língua é essa, professores?


Lembro-me, não sem comichões nos ouvidos, do pastor e cantor que, já faz muitos anos, vi cantar com toda solenidade, à frente da escola bíblica dominial, “o jovem galileu estar aqui”, querendo dizer “o jovem galileu está aqui”. Também me dá (não é me dar) coceiras nos olhos quando leio coisas como, por exemplo, “eu nascir para ...”, “eu comir ...” ou “eu recebir ...”. Tenho lido isso quase todos os dias. Hoje mesmo, 23 de novembro de 2017, o fiz.


Há equívocos no escrever que, convenhamos, são sutis e, por isso mesmo, até certo ponto escusáveis, mas escrever recebir, comir, nascir e absurdos que lhes são idênticos já é demais. Assim, sinceramente, não dá. Misericórdia!



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 22h16
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Passeio Vespertino na Marabá Pioneira

Hoje, 7 de outubro de 2017, à tarde, fui a Marabá. Aliás, Marabá Pioneira, Velha Marabá, ou coisa que o valha, como vou aprendendo a dizer, embora antes dissesse apenas Marabá, sem necessidade de adjetivação. Depois de muitos dias (meses, talvez), fui ver a orla. Aliás, fui ver o Rio Tocantins, a partir da Orla Sebastião Miranda. Amo fazer isso.

Sempre tive paixão por Marabá (rectius: pela Marabá Pioneira) e, durante anos, quase ritualisticamente ia lá duas vezes por dia, todos os dias da semana, exceto aos domingos. Inexplicavelmente, de uns anos para cá, perdi esse hábito: já não vou lá diariamente e, às vezes, passo até semanas sem ir, mas, quando vou, gosto muito.

Aconteceu isso hoje. Peguei o carro e fui lá. Estacionei na Avenida Getúlio Vargas, entre a Rua 5 de Abril e a Avenida Antônio Maia, e fui andar a pé, como sempre gostei de fazer. Como de costume, ver as praças, a orla e o rio.

Fui à casa do irmão Lúcio Virgínio Ribeiro, mas, portas e janelas fechadas, pareceu não haver ninguém. Rumei para a Praça Duque de Caxias, onde encontrei o Dr. Sebastião de Jesus Souza Castro, advogado como eu e colega de Câmara Municipal. Conversamos um pouco, depois fui ao Banco do Brasil, de onde, da calçada, fiquei por algum tempo olhando a praça e seus transeuntes, bem como os prédios da Maçonaria (o da Loja Simbólica e o dos Graus Filosóficos), por sinal, minhas casas, pois, com alegria e muita honra, sou maçom.

A tarde morria e resolvi ir logo à orla, para ver o rio. Fui e vi: o rio está bem seco, como costuma acontecer neste período. Não deixa de, a despeito do costume, nos dar, lá no íntimo, até certo temor diante de tão pouca água e muita areia. É comum neste tempo, mas sempre assusta um pouco.

Andei, da Maçonaria à Praça São Félix de Valois, parando aqui e acolá, como sempre faço, para ficar contemplando o rio, os transeuntes e tudo mais. Fazer isso, como já disse tantas vezes e escrevi outras, me dá alegria e muita paz. De lá, voltei pela Rua 5 de Abril – como também sempre faço –, não sem antes admirar por alguns minutos a Biblioteca “Orlando Lobo”, a Igreja de São Félix de Valois e o casario circunvizinho.

As casas da Rua 5 de Abril – principalmente no trecho entre as Praça Duque de Caxias e São Félix de Valois – têm características bem singulares, as quais me remetem mentalmente à nobreza antiga marabaense. Aí estão, por exemplo, o prédio do antigo Mercado Municipal (hoje, Biblioteca “Orlando Lobo”) e algumas casas antigas, de famílias tradicionais da cidade.

Novamente na Praça Duque de Caxias, tirei fotos de uma das mangueiras que há bem de frente ao prédio do Armazém Paraíba. É uma mangueira nova, muito linda, que, por sinal, está florida. Aliás, ontem, no trabalho, falamos sobre ela, quando o Jorge Antônio Brasil, marabaense morador da Praça Duque de Caxias e meu colega de Câmara Municipal, disse tratar-se de um pé de manga-rosa, plantado por ele e outros colegas seus cujo nome não declinou.

Obviamente, cada um pensa o que quer e vê o mundo como quer. Para muitos – eu sei –, isso tudo é uma besteira, tolice ou coisa parecida; para mim, todavia, foi, como sempre é, um passeio e tanto. Entrei no carro e – feliz da vida ou, pelo menos, momentaneamente bem desestressado – vim para casa.

Cada um com seus gostos e suas manias, desde que não prejudique a terceiros. Pouco se me dá o que de ruim ou depreciativo terceiros pensam. Nem todos têm a felicidade de ver e contemplar a beleza das coisas e situações aparentemente simples da vida.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 11h17
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Usuário contumaz (e por necessidade)

“Fui, por muito tempo, usuário contumaz (e por necessidade) do táxi-lotação”, eis uma das afirmações que fiz ao falar da tribuna da Câmara Municipal de Marabá, como último orador da audiência pública realizada hoje, 13 de setembro de 2017, para discutir o transporte de passageiros em geral no Município de Marabá e região.

Empreguei, propositadamente, a palavra “contumaz” como sinônimo de “acostumado” (ou, como podem querer dizer alguns, “costumeiro”), embora esse emprego não seja lá tão comum. Claro, a palavra “contumaz” é bem mais conhecida nas várias outras das suas acepções. Basta conferir nos bons dicionários.

Pois bem. Terminada a audiência, já em casa, lembrei-me do que dissera e logo sorri comigo mesmo por imaginar que talvez alguém entre os presentes tenha pensado que, por um lapso, falei erradamente. Não, não foi erro (presumo que algum dos presentes me leia esta crônica). Como eu disse, empreguei de propósito o “contumaz”, sabendo que o fazia corretamente.   

Faço o registro de que no linguajar jurídico, contumaz é o autor ou titular da ação que não comparece aos atos do processo. Não foi, entretanto, a esse tipo de contumaz que me referi. Processual e juridicamente falando, não quero jamais ser contumaz nem revel. Isso, porém, é outra história.

Gosto de empregar certas palavras que algumas ou até mesmo muitas pessoas pensam que não existem ou, ainda, que seu emprego desta ou daquela forma é incorreto. Eis a razão por que, por exemplo, emprego, não muito raramente, “desconcordo” por “não concordo” e “justificação” por “justificativa”. Faço-o por picardia, por deveras gostar de brincar com certos usos da língua.

Não desconheço, todavia, que, como bem dizia o meu saudoso mestre Napoleão Mendes de Almeida, existem “os que aos fatos do idioma preferem os eflúvios da própria cachola”. Azar destes! Não é o caso do público de hoje na audiência, claro.  



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 23h18
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Amo paletó e gravata, mas vestido não é camiseta

Sou advogado e, particularmente, gosto muito de paletó e gravata, sempre gostei. Também gosto de ver – acho lindas! – as colegas advogadas trajadas de blazer (seja com calça, ou com saia). Isso, contudo, é uma coisa. Outra coisa bem diferente e até absurda é dizer que, por não estar de blazer ou mesmo de toga, a advogada está mal vestida. Dizer então que vestido é camiseta é o cúmulo do absurdo, não dá para aceitar.


Minha irrestrita solidariedade, pois, à Dr.ª Pâmela Helena de Oliveira Amaral, advogada goiana, que, segundo reportagem do BOL Notícias, foi humilhada pelo magistrado Eugênio Cesário, juiz do Tribunal Regional do Trabalho de Goiás (TRT-GO), em audiência de quinta-feira, dia 17 de agosto de 2017, porque não estava de blazer ou de toga, tendo o magistrado chegado a afirmar que a advogada, trajada de vestido, estava querendo fazer sustentação oral de camiseta. E – mais que isso – retirou-se da sala de audiência.


Ora, ora! É muita insolência em um ato só. Se o magistrado comete um absurdo desse, com afirmação mentirosa e absurda como essa, à luz das câmeras, na presença de vários profissionais do Direito, não quero nem imaginar o resto, o que poderia fazer longe dos holofotes. Não quero. Tenho fundada repugnância no que penso que ele, à vista do que fez, seria capaz de fazer. Não o estou acusando de coisa alguma, só estou pensando, imaginando a partir dos fatos narrados na reportagem. E tenho nojo.


Por mais educados que queiramos e precisemos ser, não dá para deixar de dizer que o magistrado em questão, além de arrogante e mal-educado, é mentiroso. Sim, é mentiroso porque mentiu, à vista de todos, ao dizer que a advogada estava de camiseta. Vestido não é camiseta. Ele é, por acaso, maluco? Perdeu o juízo? Claro que fez isso porque se julga um deus, acima de tudo e de todos, inclusivamente da lei. É um presunçoso mentiroso.


Espero que a Ordem dos Advogados do Brasil – Conselho Seccional de Goiás adote as medidas judiciais cabíveis, a fim de que tamanha afronta não fique impune. É indispensável isso, para o bem da Advocacia e da Magistratura também.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 20h27
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A curva existencial

Em breve improviso no sepultamento do meu sogro, Sr. João Dias dos Santos, anteontem, dia 27 de julho de 2017, em Parauapebas, falei da curva da existência humana, que, para mim, é a curva bem acentuada de uma parábola de coeficiente positivo, cujo vértice, por isso mesmo, está acima do eixo das abscissas. Também, em homenagem de corpo presente ao meu sogro, li a crônica “Ab imo pectore, meu pai”, do meu livro A Despedida do Palacete, na qual falo do velório do meu pai, ocorrido em 20 de janeiro de 2007. O sogro é o segundo pai de seus genros e noras, assim como a sogra é-lhes a segunda mãe.

Pois bem. Colho do texto que escrevi há algum tempo à guisa de apresentação do meu livro Direito de Recusa do Paciente à Transfusão de Sangue e Outros Procedimentos Médicos e publiquei recentemente, tão logo assinei com a Gramma Livraria e Editora, do Rio de Janeiro, o contrato de prestação de serviços editorais referente à publicação do livro, as seguintes palavras:

 

A morte compõe o processo vital e não é um momento, é um processo inexorável e gradativo. A vida se esvai, perceptivelmente ou não, dia a dia: a partir de determinado tempo, a cada momento morremos um pouco. A curva natural da existência é uma parábola bem acentuada cujo vértice está acima do eixo das abscissas: salvo acidente de percurso, nascemos, crescemos, nos reproduzimos e morremos. Eis aí a sentença da qual não cabe apelação.

 

Viver com saúde é um direito de todos e proporcionar isso é dever do Estado. A terminalidade, entretanto, é parte indissociável do ciclo vital. Como último estágio da vida, morrer dignamente é um direito de todo ser humano.

 

O gráfico da vida humana é o gráfico de uma função do 2.º grau de coeficiente positivo, cuja curva é bem acentuada. A vida humana, salvo acidente de percurso, é uma parábola de coeficiente positivo. À esquerda do vértice, em escalada ascendente, situam-se os pontos que representam os ganhos e alegrias naturais da vida; à direita, em escalada descente, os pontos que representam as perdas e tristezas mais diversas do campo existencial. Morre-se gradativa, inexorável e silenciosamente.

Embora as explicações sejam diversas e variem conforme a perspectiva da discussão (religiosa, filosófica, científica, etc.), a terminalidade do ser humano faz parte do ciclo vital e é inevitável. Sentimos dor diante da morte, sentimos saudade de nossos entes queridos que morrem? Sentimos, sim: é natural. Isso, contudo, faz parte da vida. A morte – conquanto a encaremos como o invencível e último inimigo, e não nos acostumemos com ela, porque a vemos como inevitável derrota – é o último estágio do ciclo vital e o completa, encerrando-o naturalmente. Deveríamos, pois, vê-la diferentemente, com outros olhos.

Já sofri o desenlace de pai, mãe, sogra, sogro, irmão, sobrinha, cunhada e outros parentes. Meu Deus, quantas perdas, quanta dor! Sofri, sim, a palavra é exatamente esta: sofrer. Isso, todavia, não tem o condão de estremar a morte da vida: elas se entrelaçam e se completam. Não preciso explicar. Felizes os que nascem, crescem, se reproduzem, envelhecem e morrem, porque, sem acidente de percurso, completam o ciclo vital.   



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 11h21
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Apresentação do meu livro de direito médico

 

 

“As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei” (Carlos Drummond de Andrade).

 

Direito de Recusa do Paciente à Transfusão de Sangue e Outros Procedimentos Médicos é mais uma das minhas insignificâncias literárias. É insignificância? Sim, é; eu sei disso. É, contudo, a realização de um projeto pessoal. E, por isso, me basta! É um projeto dos tempos da graduação, nos bancos da Universidade Federal do Pará, quando cursava a disciplina Medicina Legal. Decidira ali, ainda em 2002, que aprofundaria os conhecimentos em Direito Médico, a despeito da paixão também por Direito Administrativo e Direito Constitucional, não necessariamente nessa ordem. Seria pós-graduação lato sensu? Stricto sensu? Especialização? Mestrado? Doutorado?... Pouco importava. Não sabia nem poderia responder e, por isso, deixava ao tempo que o fizesse. 

Ele, o tempo, o fez. Direito de Recusa do Paciente à Transfusão de Sangue e Outros Procedimentos Médicos é fruto da minha especialização em Direito Médico, pela Universidade de Araraquara (Uniara). Estou satisfeito, embora pretenda ir bem mais longe, inclusivamente aperfeiçoando e aumentando a obra em edições futuras. Mestrado? Doutorado?... Não sei. Quem o sabe? O tempo dirá. 

Direito de Recusa do Paciente à Transfusão de Sangue e Outros Procedimentos Médicos é um livrinho ou – como se queira dizer – um livreco, mas é denso. Bom, pelo menos eu, assim o vejo. Nele falo, embora muito ligeiramente, dos avanços científicos e tecnológicos, da terminalidade humana ou fim da vida (distanásia, eutanásia, ortotanásia e mistanásia), de bioética e paradigmas da relação médico-paciente, de constitucionalismo e direitos humanos, de controle de convencionalidade, da saúde como direito de todos e obrigação do Estado, de testamento vital, com um realce para o último direito do ser humano: o direito de morrer dignamente. 

A morte compõe o processo vital e não é um momento, é um processo inexorável e gradativo. A vida se esvai, perceptivelmente ou não, dia a dia: a partir de determinado tempo, a cada momento morremos um pouco. A curva natural da existência é uma parábola bem acentuada cujo vértice está acima do eixo das abscissas: salvo acidente de percurso, nascemos, crescemos, nos reproduzimos e morremos. Eis aí a sentença da qual não cabe apelação. 

Viver com saúde é um direito de todos e proporcionar isso é dever do Estado. A terminalidade, entretanto, é parte indissociável do ciclo vital. Como último estágio da vida, morrer dignamente é um direito de todo ser humano.

 

Marabá (Pará, Brasil), 25 de julho (verão para nós) de 2017.

 

 

Valdinar Monteiro de Souza



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 11h16
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Spleen, tédio de tudo

Aprendi, há muito anos (em 1979, para ser exato), que spleen significa tédio de tudo. Pois bem, consultando o verbete na Wikipédia, vejo, em resumo, que "é um profundo sentimento de desânimo, isolamento, angústia e tédio existencial". Penso, já faz algum tempo, que às vezes sinto isso. Eu fico entediado, angustiado, desanimado.

As razões? Sei lá! Depressão, ansiedade ou coisa que o valha. Por quê? Eu sei lá! Talvez, por causa de algumas enfermidades crônicas ou quase crônicas, mas, seguramente, não é só por causa delas. Não tenho ainda a idade para ficar tão desanimado, mas, de uns tempos para cá, não muito raramente, eu fico. Meu Deus!

Eu tenho ojeriza à corrupção e aos corruptos. Não no sentido da imperfeição humana, pois, nesse sentido, todos nós somos (uns mais, outros menos) corruptos, imperfeitos. Falo de corrupção e de corruptos no sentido mesmo da roubalheira, da improbidade no serviço público, da desgraça que assola o país. Eu tenho ojeriza à corrupção e aos corruptos – bem é verdade –, mas sou obrigado a conviver com ela e com eles.

Eis aí, com certeza, a raiz, se não de todos, de quase todos os meus males. Não tenho dúvida disso. Já não aguento ver o triunfar do desamor ao certo, do menosprezo à correção, a vitória do mal sobre o bem, o bandido que posa de autoridade. E não adianta alguém dizer que tenho que viver a minha vida e fazer a minha parte, porque as imperfeições e desonestidades do outro não são minhas. Isso é filosofia barata. Não adianta, porque, queiramos ou não, elas nos atingem e prejudicam seriamente.

Estou ficando doente, com pesar o reconheço, mas não vejo para quem apelar. Eu sou advogado, conheço o sistema e, conhecendo-o, não posso jamais acreditar nele. Bobo, tolo, maluco, desventurado é quem acredita na justiça. Nos políticos também. Claro que há exceções em ambos os casos, mas exceção é exceção. Basta atentar para o que ocorre no país inteiro, a começar daqui, do nosso arraialzinho medíocre de corruptos e bandidos. Contra fatos não há argumentos. É verdade.

Relembro Isaías, o profeta hebreu que viveu a cerca de 700 anos antes de Cristo, e também o grande jurisconsulto brasileiro Rui Barbosa, os quais sofreram – vê-se – a mesma desventura. Eles o disseram solenemente. Está registrado, para que ninguém o olvide.

Isaías, que clamou dizendo estar perdido por ter lábios impuros e habitar no meio de uma nação de impuros lábios, afirmou com veemência (Is 5.8): "Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra!"

Rui Barbosa, indignado, cunhou a não menos conhecida declaração de quem já não vê para quem apelar: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."

Já senti, algumas vezes, vergonha de ser honesto.

No momento, estou profundamente entediado. Tenho spleen, tédio de tudo.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 19h54
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A bula de remédio e os efeitos colaterais

Já li bulas de remédio, como tenho dito e escrito. A princípio, eu as lia a pedido dos meus pais e amigos, na minha infância e adolescência, lá na zona rural, para saber como tomar este ou aquele medicamento. Com o tempo, passei a ler bulas de remédio pelo prazer da leitura, por vê-las sempre muito bem escritas e, além disso, para aprender mesmo. A gente aprende muito lendo bulas de remédio. 

Eu, não somente as lia, como também as colecionava, guardando-as com carinho. Um dia, porém, desiludido, joguei tudo fora. Joguei fora as bulas de remédio e várias outras relíquias da minha coleção de absurdos escritos. Eu colecionava, sempre que possível, documentos e outros textos que encontrava com erros grosseiros de português.

Como disse, um dia, entediado de tudo e, momentaneamente, sem esperança de nada (hoje vejo que já era a depressão), joguei tudo fora. Rasguei e queimei, fiz sei lá o quê. Depois, é claro, veio o arrependimento, mas já era tarde demais. Tal qual na música de Altieris Barbiero, “Se amar é viver”, babau, cachimbo de pau. Irremediável.

Pois bem. Bons tempos eram aqueles em que eu lia bula de remédio por mero prazer e busca de novos conhecimentos! Hoje é diferente, eu as leio por necessidade de saber, principalmente, os efeitos colaterais do que vou ingerir. E aí moram o perigo, a chatice, o grande problema. Caramba, não é brincadeira, não! Dá para ficar deprimido, velho. Hoje, por exemplo, me aconteceu isso.

Fui ao médico, que me receitou dois medicamentos, dois remédios. Comprei e – diferentemente do que fazia antes – não os tomei antes de ler cuidadosamente a bula (nem depois, é claro). Sozinho e desamparado na sala do escritório residencial, fiquei, deveras, deprimido: os possíveis efeitos colaterais de um dos remédios eram inquestionavelmente muito piores do que a enfermidade que estou sofrendo. Resultado: decidi não tomar o remédio, pelo menos, antes de falar novamente com o médico. E fiquei arrasado, pois a enfermidade sofrida – um abusado e permanente desconforto gástrico e ferimentos bucais –, de fato, muito me está incomodando.

Eu, contudo, preferi continuar como estava (e estou) a correr o risco de sofrer, uma pequena parte que fosse, dos efeitos colaterais. Não vou nem enumerá-los aqui, Deus me livre! Dá medo e revolta. Vou mesmo ter que me submeter à endoscopia, aquela coisa maluca e tremendamente invasiva. É o único jeito, creio que é. E – é claro e evidente, para ser propositadamente redundante –, mesmo após a endoscopia, não tomarei os remédios eventualmente receitados antes de ler, atentamente, a bula de cada um deles e, se for o caso, falar com o médico.

Moral da história: voltei a ler bulas de remédios. Agora, compulsoriamente. É mole, ou quer mais? Não é mole, eu sei, mas eu lhe aconselho que não tome remédio sem antes ler atentamente a bula e, se for o caso, questionar o médico que lho receitou. Simples assim.    



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 00h38
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A Cidade de Cora Coralina

Vai longe o tempo em que aprendi na História do Brasil sobre as entradas e bandeiras e, dentre estas, sobre a bandeira dos dois Bartolomeus (Bartolomeu Bueno da Silva, pai e filho), chamados pelos índios de Anhanguera, que quer dizer, como sabemos, “diabo velho”, sempre citada por quase todos, se não por todos, os livros de História do Brasil. 

Bartolomeu Bueno da Silva, filho, foi o fundador – diz-nos a História – do Arraial de Sant'Anna, depois Vila Boa de Goiás, em 26 de julho de 1727, embora, faz mister registrar, haja controvérsias sobre essa data. Vila Boa de Goiás, Goiás Velho e, por fim, Cidade de Goiás, ou apenas Goiás, é a terra natal de Cora Coralina e de tantos outros vilaboenses ilustres. 

Como me tem sido em relação a várias coisas da vida, guardei comigo durante muito tempo o sonho de visitar a terra de Cora Coralina. Demorou, mas agora o fiz: fui a Goiás Velho, em 8 de abril de 2017, um sábado ensolarado e belo. Coincidentemente, 8 de abril é, na Literatura, o aniversário de lançamento do romance O Ateneu, de Raul Pompeia, que se deu, segundo a história, há mais de um século – precisamente em 1888 –, assim como mais de um século tem a bela e culta Cidade de Goiás. 

Fui e gostei muito. Amei a viagem, embora tenha sentido a todo instante a ausência da Câmelha, que, preferindo ir às compras em Goiânia naquele sábado, não me acompanhou na tão esperada viagem cultural. A cidade é pequena para sua idade centenária e, mais do que isso, para sua importância sui generis na política do Estado de Goiás, mas é bela e culturalmente rica, com seu traçado urbano, pavimentação e arquitetura característicos do século XVIII, seus belos museus e sua história. 

Arraial de Sant'Anna, depois Vila Boa de Goiás e agora Cidade de Goiás, ou – como se preferir – apenas Goiás, também chamada de Goiás Velho, foi a sede da Capitania, no tempo das capitanias hereditárias, depois da Província e, por fim, do Estado de Goiás, estado-membro da Federação. Não é, pois, sem razão que foi tombada como patrimônio histórico e cultural mundial pela Unesco. 

Meu guia foi o amigo Dr. Nilson Gomes Carneiro, jornalista e advogado goiano, homem culto e de boas maneiras, que, com muita atenção e boa vontade, levou-me no seu automóvel e guiou-me pela cidade, onde visitamos a Praça do Chafariz, o Museu das Bandeiras, o Museu de Arte Sacra da Boa Morte, o Palácio Conde dos Arcos e o Museu Casa de Cora Coralina. 

 Almoçamos no Restaurante Flor do Ipê e visitamos ainda, muito rapidamente, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Não havia mais tempo: precisávamos voltar para Goiânia, por causa do baile de formatura da Nilma Gomes Carneiro, irmã dele e dos também meus amigos e colegas de profissão Dr.ª Nilza Gomes Carneiro e Dr. Nilton Gomes Carneiro. 

De mais tempo naquele dia quisera eu dispor para ter andado por lá, mas valeu a pena! Goiás, a cidade de Cora Coralina é simplesmente inesquecível, apaixonante! Aliás, para mim, tudo que diz respeito a Cora Coralina é apaixonante: sua história, sua coragem, seu jeito altivo de viver e ver as coisas, sua poesia.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 09h16
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Tais são as coisas deste mundo

De forma interessante, o historiador Ládmo Valuce – escrito assim mesmo, com acento agudo no “a” – registra a irônica e nostálgica comunicação epistolar do ex-regente do Império padre Feijó, como revolucionário, com Luís Alves de Lima e Silva, então barão e futuro duque de Caxias, como comandante do Exército, na revolta liberal paulista de maio de 1842. Feijó escreveu: “Quem diria que o Sr. Luís Alves de Lima e Silva seria obrigado a combater o Padre Feijó? Tais são as coisas deste mundo!” E Caxias, de pronto, lhe respondeu também por carta: “Quando pensaria eu que teria de usar a força para chamar à ordem o Sr. Diogo Antônio Feijó? Tais são as coisas deste mundo!” 

Pois bem. Manhã de 18 de maio de 2017. Leio no G1 que o ministro Edson Fachin, relator no Supremo Tribunal Federal da chamada operação Lava-Jato, decretou o afastamento de Aécio Neves do cargo de senador da República, bem como a prisão de Andrea Neves, irmã e assessora do senador, por suspeitas de corrupção. 

Sei que Aécio Neves e Andrea Neves, sua irmã, têm direito, na forma da Constituição e da lei, ao contraditório e à ampla defesa, bem como gozam da presunção de inocência até o trânsito em julgado de eventual condenação, após o devido processo legal. Os indícios, todavia, parecem fortes e geram, por isso mesmo, profunda indignação, exceto, talvez e obviamente, nos seus correligionários.   

Nascido em 1960 e tendo, por conseguinte, vivido a infância, a adolescência e grande da juventude debaixo da ditadura militar instaurada em 1964, lembro-me imediatamente do avô deles, senador Tancredo Neves, símbolo heroico da resistência e sinônimo de reserva moral nos anos dourados de esperança da minha juventude. Puxa vida, quando pensaria Tancredo Neves que atos – ou, pelo menos, indícios de atos – praticados por netos seus levariam a tanto? Nunca! O homem íntegro que ele foi jamais pensaria isso. 

Impossível não me lembrar também no mesmo instante da empáfia de Aécio Neves e seus seguidores ao longo de todo o processo de impeachment da presidente da República Dilma Rousseff (e mesmo depois dele). Da empáfia e da responsabilidade direta deles todos no caso. Seriam santos do pau oco? Aliás, sem demérito ao bom e respeitável povo mineiro, registro aqui que, embora haja controvérsia sobre o assunto, atribui-se a origem dessa expressão – santo do pau oco – a Minas Gerais, no tempos históricos da cobrança do quinto.

Tenho ojeriza a bandido que posa de autoridade. Bandido é bandido e tem de se pôr no lugar dele, nada de se travestir de autoridade. É por essa e outras razões que eu digo que, em Marabá e tantos outros lugares do Brasil, boi voa disfarçado de pombo. E voa mesmo, embora alguns – santinhos do pau oco também – não gostem que eu o diga. O Brasil é um país de políticos bandidos, graças à população hipócrita, que os elege, promove e sustenta. 

Parodiando Lúcio Flávio Vilar Lyrio, tristemente famoso assaltante de bancos dos anos 1960 e pouco a 1970 e pouco, podemos dizer: "Bandido é bandido, autoridade é autoridade. São como água e azeite. Não podem se misturar." Ocorre, todavia, que, como já escreveu Afonso Romano de Sant’Anna: “Nem sempre bandido é bandido e nem sempre polícia é polícia. Tudo depende das testemunhas e de quem é o escrivão de plantão na delegacia da História.” 



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 09h29
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NÓS, EVANGÉLICOS, SOMOS INTOLERANTES

 

Certa vez, em Xinguara, já faz alguns anos, quando eu ainda nem era evangélico protestante, conversava com um colega sobre religião. Aliás, nem era bem sobre religião: a conversa girava em torno de um debate político que acontecera na tevê, na noite anterior, sendo que um dos debatedores era o então deputado federal por Pernambuco Roberto Freire, do Partido Comunista Brasileiro (PCB). E, quando, a certa altura da conversa, eu o elogiei pelo fato de, mesmo ele sendo ateu, ser tolerante com a crença dos demais, o irmãozinho meu interlocutor, que era e ainda é membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, me repreendeu asperamente.

Em seguida, contra a minha vontade, entabulamos um diálogo insípido, extremamente desagradável, que me deixou deveras aborrecido, pois sempre detestei pessoas intolerantes e preconceituosas, que se julgam as únicas detentoras da verdade absoluta, notadamente em matéria de fé. Eu ainda não era evangélico de direito, mas já o era de fato: cria na Bíblia Sagrada, como a Palavra de Deus, e em Jesus Cristo, como o Filho de Deus, meu Senhor e Salvador. Faltava somente filiar-me a uma denominação evangélico-protestante, como fiz algum tempo depois, entrando para a Igreja Presbiteriana do Brasil, a qual, anos depois, praticamente expulsar-me-ia por ser maçom. Ironia do destino. Há coisas que se não explicam, ou, pelo contrário, são explicadas até demasiadamente. Sei lá!

O problema do meu interlocutor naquela conversa é que ele era muito intolerante com as pessoas não crentes e com os crentes de outras denominações que não a denominação dele, como, aliás, infelizmente são quase todos os cristãos evangélicos que conheço. Ele simplesmente pensava que, por termos a convicção pela fé de que somente Jesus Cristo salva, temos de sair impondo a nossa verdade às demais pessoas, sem nos preocuparmos com a fé que elas professam.   

Foi demais. Muito chato e, acima de tudo, uma conversa infrutífera, amarga e sem graça.  Anos e anos se passaram, tornei-me evangélico e tudo que sempre desejei foi simplesmente ser crente: nenhum cargo, nenhuma posição de realce, nada mais, pois nunca desejei cargos de liderança por onde quer que passei. Ledo engano, esperança debalde, malograda: isso me seria negado. E foi. Oficialmente, não, mas, na prática, me expulsaram da minha igreja pelo fato de eu ser maçom. Intolerância é coisa do diabo, agora, mais do que nunca, o vejo. E sofro. Sim, eu o sofro há muito. Deus saberá até quando. Uma convicção, contudo, eu tenho: a Maçonaria é inocente nessa história.

 Em relação ao dito episódio ora relembrado, faço minhas, com muita propriedade, estas palavras de Mauricio Zágari, pinçadas de A Pecaminosa Intolerância dos Evangélicos: “[...] naquele dia, eu tive de admitir algo que é muito doloroso para um cristão: nós, evangélicos, somos intolerantes. Aliás, muito intolerantes.” Não somente naquele dia, hoje ainda mais o admito. E sofro. Nós, evangélicos, somos intolerantes. Eu, contudo, acrescento que intolerância é coisa do diabo e seus sequazes. Quem quiser que se peje.

É verdade. Desde criança, ouvia meu pai dizer que até o diabo tem os dele. É duro, mas penso que é verdade: o diabo tem os seus sequazes. Consola-me, contudo, saber disto: “O Senhor conhece os que lhe pertencem” (2 Tm 2.19). Isso me basta. O nosso tempo não é o tempo de Deus. Isso também é bíblico.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 00h44
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RESPEITO, DECÊNCIA E ELEGÃNCIA

Respeito, decência e elegância são qualidades que se não veem com muita frequência ultimamente no Facebook e nas demais redes sociais. Procuro, todavia, fazer a minha parte e nem sempre seguir a maioria. A multidão, como turba ensandecida, nem sempre está certa e, por isso mesmo, não raro é má conselheira. Há exemplos históricos contundentes que falam por si sós; basta, pois, revisitá-los.

Não vou chamar aqui de bandidos e criminosos os ainda Deputado Federal Eduardo Cunha e Senador Renan Calheiros por dois motivos: primeiro, sou um advogado que prima pela decência e defende no mais alto sentido da palavra o princípio constitucional da presunção da inocência até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória; e, segundo, eles são réus, mas ainda não têm nem sequer sentença penal condenatória, quanto mais transitada em julgado.

O que vale para Chico também vale para Francisco, pois o hipocorístico não apequena nem faz por desmerecer a ninguém. Daí já dizer o ditado: "O pau que dá em Chico dá em Francisco." Renan e Cunha, para este advogado, mesmo sendo réus, serão inocentes até a sentença penal condenatória transitada em julgado. Agora, que é extremamente difícil que, ao fim e ao cabo, permaneçam sendo, isso é!

É difícil para qualquer pessoa decente aceitar que uma pessoa acusada de tantos crimes de corrupção e outras espécies, réu em tantos processos, como Eduardo, presida, exercendo assim a função de magistrado, um processo de admissibilidade de denúncia contra a Presidente da República. Ele, mesmo gozando do princípio da presunção da inocência, há muito já deveria ter sido, processual e constitucionalmente, afastado do cargo de Presidente da Câmara dos Deputados.

E não somente ele! Centenas de deputados que votaram pelo sim são acusados da corrupção que dizem combater. Como entender isso? Como, serenamente, aceitar como razoável tanta hipocrisia? Como aceitar que um deputado, ao votar no sim, olhe para o acusado e réu por corrupção Eduardo Cunha e diga que vota no sim, contra a corrupção e para dar esperanças ao porvir? É muita falta de vergonha na cara! É muita desfaçatez!

Eu tenho medo, muito medo, dos donos da verdade, dos arautos da moralidade de plantão, santões e santarrões, porque sei que a verdade não tem donos, porque sei que os tais, no fundo, não existem como se mostram: são fantasmas naquilo que se esforçam por mostrar, pois, na essência, são hipócritas, indecentes e imorais.

Minha autodefinição preferida é: "Sou homem e, por isso, imperfeito." Não é da boca para fora, eu realmente acredito nisso e, por isso, temo e tremo. “O tempo é o senhor da razão”, já diz a sabedoria popular. É esperar para ver. Vamos para frente, mas com respeito, elegância, decência e ordem!



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 14h01
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