SOPINHA DE REMÉDIOS E SOCIEDADE SUI GENERIS
Ácido acetilsalicílico, captopril, carvedilol, digoxina, espironolactona e furosemida, eis aí alguns dos remédios que tomo diariamente. Esses aí são por causa da cardiopatia e os tomo permanentemente há mais de um ano, sem previsão de parar. Mas, como de vez em quando tenho outros problemas de saúde, tipo alergia respiratória, dermatite e reumatismo, acabo tomando mais outros medicamentos. Caramba! Sou, pelo conteúdo, uma drogaria semovente. Abrindo e fechando parêntesis, semovente é o ser ou a coisa animada que se move por si mesma. Daí a classificação dos bens em móveis, imóveis e semoventes, pelo Código Civil. Bens móveis são os que podem ser movidos pelo ser humano, sem modificação ou prejuízo da essência, como carros e mesas, por exemplo; bens imóveis são os terrenos e suas acessões físicas, e ainda os assim declarados por lei; bens semoventes são os bois, os cavalos, e assim por diante. Tomar tanto remédio diariamente me incomoda, é óbvio, mas não muito, a não ser o bolso, que é a parte mais sensível do homem (e da mulher também). É claro, já me pareço um sócio da rede Big Ben, só que é uma espécie de sócio a que os manuais de Direito Societário e de Contabilidade não fazem a menor alusão, a saber, aquele sócio que injeta recursos frequentemente, mas não tem participação nos lucros. Seria um sócio passivo? Sei lá! Sou advogado e, antes de me graduar em Direito, formei-me no curso técnico de Contabilidade, mas nunca li nada a respeito nem ouvi falar desse tipo de sócio. Brincadeira, claro; mas que é verdade é. É uma sociedade sui generis. Se não o incomoda muito, por que, volta e meia, escreve sobre o assunto? – há de se perguntar algum leitor. É que eu gosto de me lembrar sempre de que, se tomo remédio é porque estou doente, mas não estou morto. Mas não é somente por isso. É também porque, como já escrevi em outra ocasião, o nome genérico, a denominação do princípio farmacológico ativo dos medicamentos sempre me chamou a atenção. Alguns (se não quase todos) são bem diferentes do linguajar do homem comum. O professor Gerson, de São Paulo, leitor das minhas crônicas no blogue http://valdinar.zip.net, contou, no comentário à crônica “Fumarato de Cetotifeno”, que toma diariamente cloridrato de trazodona. Aliás, a manifestação do leitor não tem preço, tem valor e valor incalculável. O leitor merece todo o respeito e carinho, na boa e mais profunda acepção dessas palavras. Se me demoro um pouco mais de uma crônica para a outra ou, ainda, quando o jornal deixa de deixar publicar o que escrevo, logo vêm dois, três ou mais leitores marabaenses dizendo-me: “Doutor, não deixe de escrever não! Eu leio sempre seus textos e gosto muito deles.” Do mesmo jeito, leitores de São Paulo, do Rio e de outros lugares, têm-se manifestado pela rede mundial de computadores. Um dia (já faz alguns anos, pois ainda estava na Universidade), um dos meus professores de Direito abordou-me na porta do Banco do Brasil e, brincando, perguntou: “E aí, gramático? Quando é que vai sair da gramática?” E, antes que lhe respondesse, foi logo me dizendo: “Olhe lá, estou brincando. Não vá pôr meu nome lá não!” Também fiquei feliz um dia desses quando me disse um dos colegas da Universidade, da turma de Direito de 1996, que só compra o jornal Correio do Tocantins, ou o jornal Opinião (Marabá, infelizmente, ainda só tem esses dois jornais) quando sabe que tem a minha crônica. Há, todavia, quem não gosta do que escrevo, o que é natural. Existem pessoas que se incomodam até com o latim, que já é morto, imagine com a balela de cronista de meia-tigela, que, muito embora doente, ainda está vivo. Agradar a todos, com sabemos, é simplesmente impossível. Ah!... Antes que me esqueça, só falei de remédios hoje porque tive que comprar ácido acetilsalicílico, captopril, carvedilol, digoxina, espironolactona, furosemida e dipropionato de betametasona (este último, de uso dermatológico). “Mas é claro, meu chefe!” – como diz o amigo Milton Farias.
Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 18h23
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FRAGILIDADE HUMANA
Segunda-feira, 12 de outubro de 2009 seria mais um dia qualquer dos meus 49 anos de vida, se não fora o dia triste que foi: participei de dois velórios, juntamente com a Câmelha, minha mulher, e, na hora dos sepultamentos, tivemos que nos separar; fui para o cemitério “Recanto da Saudade”, Nova Marabá, e ela foi para o cemitério (pelo menos que eu saiba) ainda sem nome, na Cidade Nova. É que, na noite de ontem, faleceram duas pessoas da nossa amizade: Simone Maria Vasconcelos Nascimento, de 21 anos, secretária da Escola Municipal “Luterana”, onde a Câmelha é coordenadora pedagógica; e Adenair Freitas Heringer, de 77 anos, amada irmã em Cristo (da Igreja Presbiteriana do Brasil, como nós). Foi uma experiência ímpar e dolorosa, pelo intraduzível sentimento de perda corroborado pela dor inexprimível da impotência ante a perecividade natural do ser humano. A morte, conquanto seja a quase certeza da vida de cada um, ninguém a espera nem a deseja. Digo a quase certeza, porque advogo a minha fé nas Sagradas Escrituras, segundo as quais nem todos morrerão: quando Cristo voltar, os mortos ressuscitarão e os vivos serão transformados (1 Coríntios 15.51, 1 Tessalonicenses 4.17). Encerradas as cerimônias e passada a agonia da hora mais triste, que é a das primeiras pás de terra jogadas sobre o caixão baixado à sepultura, voltamos nós, cada um para sua casa, e aqui estou eu, após o reencontrar da mulher, que fora prestar a última homenagem a sua colega Simone. Ela dorme, porque não dormiu de ontem para hoje e estava muito cansada; eu, todavia, não consegui conciliar o sono, por mais que o buscasse. Precisava escrever alguma coisa, dizer algumas palavras sobre o estado de espírito de que me vejo prisioneiro no recesso silencioso do meu íntimo, deixando-me abandonar à meditação profunda sobre os mistérios da vida e da morte. Ah, como quisera eu ser o poeta que não sou, para expressar, de forma grave, mas espirituosa, o que agora me incomoda e locomove! Como gostaria de poder consolar de forma realmente eficaz a mãe, pai e irmãos da jovem de 21 anos, bem como, semelhantemente, o marido, filhos e netos da amada irmã em Cristo. Sem chance, impossível! Não sou poeta e, ainda que o fosse, não poderia fazê-lo: tudo que escrevesse ou dissesse não supriria jamais a falta dos entes queridos que se foram. Só o tempo, naturalmente, poderá trazer, de alguma forma, a consolação. Nós somos frágeis como a flor da erva, que desabrocha na madrugada e ao entardecer já quedou murcha e sem vida. A jovem linda, bem-educada e talentosa que anoiteceu cheia de vida e de sonhos não pôde ver o amanhecer, porque já estava morta. Ontem, trabalhava, corria, brincava, sorria e fazia planos; hoje, está enterrada e com ela pereceram todos os seus sonhos! Na outra família, o jovem que um dia se casou, viu com alegria, ano a ano, nascer e crescer cada um dos filhos, agora, ancião, o corpo alquebrado e a mente amortecida pelo esvair-se natural da existência, viu baixarem à sepultura os ombros que toda a vida o ampararam. A morte, ah, como é terrível a morte! A Bíblia diz que Deus pôs a eternidade no coração do homem (Eclesiastes 3.11), mas, como se vê, o homem é um produto altamente perecível. É preciso ter esperança na vida futura, pois a vida terrena é muita curta, efêmera ao extremo: a ninguém vale a pena se apegar às coisas deste mundo. Como escreveu o apóstolo Paulo (1 Coríntios 15.19): “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.”
Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 00h37
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