LEMBRANÇA DE PESCARIAS E CAÇADAS
Tenho às vezes o amargo sentimento de inutilidade de muitas coisas, pessoas e instituições, que se faz seguir de revolta, descrença e outros sentimentos da mesma estirpe. É comum deixar-me abandonar aos pensamentos, indagando-me, não muito raramente, se as demais pessoas do meu convívio, das instituições a que pertenço e locais da minha atuação, lutam com o mesmo estado de espírito. Não sei. Minha reação a isso é ambígua: ora, quero crer que sim; ora, que não. É mais um sábado e estou em casa. Passa das 15 horas de 5 de setembro de 2009, para ser mais preciso. Mais um dia em que, repentinamente, me vejo pensativo e calado, entregue às reminiscências do passado que vai se tornando distante. Sempre fui inconformado com a brevidade da vida e com o que as pessoas fazem dela. Há pessoas como, por exemplo, o médico Rinaldo de Lamare, que dedicam a vida inteira a uma boa causa; há outras, todavia, como o criminoso Fernandinho Beira-Mar, que a dedicam inteiramente às coisas ruins; e há outras, ainda, que não a dedicam a causa alguma, nem boa nem ruim. Na minha modesta sala de estudos, pegando um livro daqui outro dali, acabei relendo as crônicas “Cajueiro” e “Lembranças da fazenda”, de Rubem Braga; “Talvez o último desejo”, de Rachel de Queiroz, e “O milagre das folhas”, de Clarice Lispector, textos diferentes entre si – o que por si só demonstra a diversidade das minhas lembranças e divagações – com os quais me identifico pelo enfoque eminentemente pessoal dado à ocasião pelos autores. Não pude deixar de me emocionar, lembrando-me da minha infância e adolescência, na zona rural, juntamente com meus pais e meus irmãos, dos meus sonhos da época, das minhas alegrias, das tristezas e sofrimentos. Reler “Cajueiro” e “Lembranças da fazenda” fez aflorar, com a nitidez dos acontecimentos como se fossem de ontem, a lembrança do castanhal Cajueiro, zona rural de São Geraldo do Araguaia, onde eu e meus irmãos José, Raimundo e Valdener, pescávamos de anzol no Sororozinho e caçávamos paca na mata de castanha-do-pará. Havia muito peixe e, quase todas as vezes, nosso velho cão, chamado Jupi, acuava paca, que matávamos com relativa facilidade. A paca da região fazia morada em toca rasa com saída para o riacho, e tornava-se presa fácil quando, tentando escapar, pulava na água baixa da estação do estio, podendo ser abatida a tiro de arma de fogo ou mesmo a facão. Um dia, um soldado combatente da Guerrilha do Araguaia, que pescava conosco, matou uma com o fuzil. Em outra pescaria, outro soldado atirou com o fuzil em um poraquê e, por haver disparado a arma, chegando ao alojamento da tropa, pegado a nossa casa, levou a maior bronca do comandante. Com as lembranças veio imensa tristeza. Não mais existe a floresta tão densa, tão linda, tão rica e tão acolhedora onde a gente pescava e caçava: cortaram e queimaram tudo, de forma imbecil e criminosa. Foi-se para não voltar, porque já não existe, a bela e exuberante castanheira, como se foram para não mais voltar as outras espécies da flora. E outra não foi a sorte da onça-pintada e outras onças, do veado-mateiro e outros veados, como a da paca e da cutia, da tona e da nambu-pé-de-serra, do jacu e do mutum-castanheiro, da arara e do papagaio. Mataram tudo. Acabaram tudo.
Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 01h25
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