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Blog do Dr. Valdinar M. de Souza
 


ELA, A BULA DE REMÉDIO

É incrível! Já disse, em outras crônicas, que gostava de ler bula de remédio. E é verdade, lia mesmo. Comecei a fazê-lo ainda adolescente, a pedido do meu pai ou da minha mãe, ambos analfabetos, para saber as indicações e, principalmente, a posologia.  Posteriormente, passei a ler bulas por simplesmente gostar, ainda que isso possa parecer incrível para muita gente, mormente os inimigos da leitura de qualquer tipo de texto. Mas, como disse antes, eu lia, não leio mais (por falta de tempo, principalmente). E estou, contudo, cada vez mais inclinado a voltar a ler, por causa das descobertas que tenho feito.

 

Hoje me vi tentado a escrever novamente sobre o assunto e peço vênia ao leitor, a quem respeito e não quero desagradar. Que isso, portanto, me seja permitido. É que eu não sabia de outras pessoas com o mesmo hábito, mas de vez em quando as tenho descoberto. E o mais importante de cada descoberta é ver, com alegria, que os outros leitores de bula de remédio, ao contrário de mim, são pessoas importantes, são escritores ilustres da estirpe de Carlos Heitor Cony e Rubem Fonseca, por exemplo.

 

Caramba! É legal demais! Não estou sozinho e, como se isso não bastara, estou, em tal costume, ladeado por sumidades da intelectualidade brasileira. Posso, por conseguinte, parodiando o soldado Chespirito, personagem de um episódio do Chaves, dizer: “Ah, dileto leitor, é honra demais para eles!” Brincadeira, lógico. Mas, é verdade, gosto de assistir aos programas do Chaves. Sempre gostei. Por causa, certamente, da pobreza de ambos, a dele e a minha.  

 

Voltemos, contudo, à bula. O que hoje despertou sobremaneira minha atenção e me fez voltar ao assunto foi o motivo por que o mestre Cony, imortal da Academia Brasileira de Letras, lê bula de remédio: não é para saber as indicações nem a posologia, é para se sentir humilhado, para relembrar que, diante da linguagem da bula, ele, como os demais mortais, não está com nada. Confira, pois, o leitor a simpatia, ironia e sagacidade da crítica: “Quando sofro um assomo de sabedoria e me considero razoavelmente informado, costumo ler bulas de remédio para sentir a humilhação de não entender nada do que estou lendo” (Carlos Heitor Cony, na crônica “O morfema”).

 

É. Ela, a bula de remédio, tem muito mais serventias do que pensamos nós, os mortais comuns, algumas delas, com efeito, serventias aqui inconfessáveis. Não há jeito que dê jeito. Vou voltar a ler bulas de remédio, a começar pelas de ácido acetilsalicílico, captopril, carvedilol, digoxina, espirololactona e furosemida, que tomo diariamente por causa do coração. Não posso deixar de fazer isso. Preciso ficar mais humilde, me sentir mais humilhado.

 

Ih!... Já sei. Você achou remédio demais? Pois, seu moço, não pense isso não! Falei apenas das minhas drogas de uso diário (impostas pela cardiopatia, não pelo cardiologista), mas existem muitas outras que, aqui e acolá, ando tomando por outras indicações médicas. Não mencionei, verbi gratia, as do reumatismo. Deixemos isso. Chega. Basta dizer que sou, pelo conteúdo, uma drogaria semovente. E preciso voltar a ler bula de remédio, por gosto literário, para me sentir humilhado e, principalmente, por uma questão de sobrevivência.  



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 15h40
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DIA DO AMIGO

Não sabia que 20 de julho é o Dia do Amigo. Fiquei sabendo este ano graças à tecnologia e pelo mesmo motivo não pude me esquecer da comemoração, uma vez que estou doente e, por conseguinte, tenho que me ocupar da minha saúde em vez de ficar ligado em comemoração disso ou daquilo. Pois bem. Dia 19, à noite, ao abrir minha página no Orkut, deparei-me com mensagem da amiga Gilmara Neves, alusiva à comemoração do Dia do Amigo. Aí fiquei sabendo da sua existência, que, como já disse, não sabia.

 

Abrindo e fechado parêntesis, é bom lembrar que a rede mundial de computadores, mais conhecida por internet, é um dos assombrosos prodígios hodiernos da ciência e da tecnologia, muito embora nem atentemos para isso. Conquanto ainda exista um enorme contingente de excluídos, para milhões e milhões de pessoas do mundo inteiro é tão comum acessar a internet quanto tomar banho ou fazer qualquer outra coisa que o valha pelo uso cotidiano.

 

Dia 20, levantei-me cedo devido às dores reumáticas que me atormentaram a noite inteira: doíam-me o calcanhar do pé esquerdo e o joelho direito, que estão inchados; o mucumbu e os ombros. Passei a noite com febre. Tão logo me levantei, tomei a medicação da manhã imposta pela cardiopatia (furosemida, digoxina e carvedilol), li a Bíblia e o devocionário Cada Dia, e liguei o computador, para acessar a internet e poder conectar-me virtualmente ao mundo inteiro. E, quando abri meu e-mail do Brasil On Line (BOL), lá estava a mala-direta eletrônica do Submarino, oferecendo-me descontos imperdíveis para compras feitas, no Dia do Amigo, com o cartão Submarino.

 

Da leitura da Bíblia na tradução da Nova Versão Internacional, calou fundo no coração este rasgo: “Que a paz de Cristo seja o juiz em seu coração, visto que vocês foram chamados para viver em paz, como membros de um só corpo. E sejam agradecidos” (Colossenses 3.15). Da mensagem do Cada Dia, intitulada “Em tudo dai graças”, a frase: “Deus espalhou pequenas revelações da sua bondade e graça por toda a sua criação.”

 

Lembrei-me do que a primeira parte do último versículo do capítulo 31 do livro de Gênesis (primeiro livro da Bíblia, para quem porventura ainda não sabia) nos diz: “E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom.” A obra da criação reflete a bondade de Deus, que é mais do que um amigo. A Bíblia diz que há amigo mais chegado do que um irmão. É verdade! Neste mundo de falsidade, hipocrisia e mentira, um amigo de verdade é revelação da bondade de Deus. Como diz a canção popular, “um amigo de verdade não se encontra por aí”.

 

Por fim, a lembrança da mensagem da amiga Gilmara, da qual guardei estas palavras: “Ser amigo é falar mesmo quando o amigo não deseja ouvir, é estar sempre pronto para compartilhar, dividir e juntos encontrar as soluções para qualquer problema.” De outra mensagem virtual, enviada lá do Rio Grande do Sul, a frase: “As mais lindas coisas da vida não podem ser vistas nem tocadas, mas sim sentidas pelo coração, assim como a minha amizade por você.” Achei legal, lindo, cativante!

 

Despertado para a realidade das dores espalhadas pelo corpo, fiquei pensando nos relacionamentos pessoais do plano físico e do virtual. No plano virtual, a despeito da frieza da tela do computador, parece haver mais calor, mais energia, porque as pessoas são mais espontâneas. Ou mais hipócritas. Sei lá! Já nos relacionamentos físicos, as pessoas ainda têm barreiras que lhes impedem a expressão espontânea dos sentimentos de amizade, de carinho, de amor fraternal, de admiração.

 

Que pena! No Dia do Amigo de 2009, ainda é mais fácil dizer “você é muito importante para mim” pelo computador do que fisicamente, porque as pessoas continuam aprisionadas pelos preconceitos e barreiras de toda a ordem e natureza. Ah!... Escrevi mucumbu, por querer homenagear meu avô materno que chamava de “dor no mucumbu” o que, anos mais tarde, a Medicina Legal ensinar-me-ia que se chama de “dor na região ilíaca”.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 17h12
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EXAGERO? SIM, CERTAMENTE. DE AMBOS OS LADOS

Texto do blog do Ademir Braz, Quaradouro, postado em 17 de julho de 2009, sob o título “Exagero”. Ademir Braz é advogado como eu, meu irmão maçom e amigo, e o endereço do Quaradouro é http://quaradouro.blogspot.com:

 

Exagero

 

Advogado baiano trouxe petição de 300 laudas à Subseção Judiciária local e o despacho do magistrado deveria tornar-se súmula vinculante: "Não se admite nos tempos atuais que alguém faça uma petição desse porte, dessa natureza. Sugiro ao autor que a reduza para no máximo quinze laudas. Não obstante, este Juízo, conforme sua disponibilidade, lerá de cinco a dez páginas por dia."

 

Meu comentário

 

"Se lascou-se", mano velho! Essa petição eu faço questão de ver.

 

Se bem que as leis processuais, pelo menos que eu saiba, não fixam número mínimo nem máximo de páginas que devem formar uma petição. Em sendo assim, penso que, diante do princípio da legalidade  ("ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei", art. 5.º, II, CF), o magistrado, sob pena de se arvorar acima da Constituição da República (o que não meu causa espanto, se acontecer), não pode fixar o número de páginas da petição de quem quer que seja. Não, não pode, mano velho! Cabe a ele, magistrado, como poder constituído pelo povo e em seu nome exercido, tão somente deferir ou indeferir, no todo ou em parte, a petição do advogado, em qualquer das hipóteses, fun-da-men-ta-da-men-te.

 

Sinceramente, não sei qual dos dois é mais abusado, se o advogado-escritor, sem senso do ridículo, ou se o juiz-censor, que parece no não ter agido no caso com o mesmo senso.

 

É como vejo e por isso defendo. Não sei os outros advogados. Tomara que não me esconjurem!

 

De fato, causa espécie e admiração o autoritarismo demonstrado por alguns juízes em despachos e decisões diversas. Há também servidores do Poder Judiciário muito petulantes, autoritários e mal-educados, como há advogados do mesmo jaez. Conquanto assim ajam muitas vezes, o fazem ao arrepio da lei, que, em sentido contrário, tem mandamentos específicos para todos.

 

O advogado deve ser conciso nas postulações e agir sempre de forma que angarie o respeito de todos, para si e para a categoria a que pertence. Agir, todavia, com independência em quaisquer circunstâncias, sem medo de, no exercício da profissão e se for preciso, cair em impopularidade ou desagradar ao magistrado ou a qualquer outra autoridade. O juiz obrigatoriamente deve decidir, deferindo ou indeferindo, mas sempre fundamentadamente. Fundamentar na lei, se houver; não havendo, na analogia, nos costumes e nos princípios gerais de direito. E o servidor? Bom, o servidor – que, seja qual for o cargo, é pago pelo contribuinte – deve ser eficiente e agir com urbanidade, tratando a todos com o respeito e acatamento devidos.   



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 13h01
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