POSSÍVEL PARA DEUS
Acordei no dia 1.º de janeiro, dia de ano-novo e começo de ano novo. Chegou 2009! Amanheceu e notei que, graças a Deus, as coisas não mudaram. A rua, os postes, as casas, as árvores, tudo está no mesmo lugar. Para minha tristeza, até as pessoas ruins, os maus vizinhos, estão do mesmo jeito e no mesmo lugar. Mas isso é o normal. Anormal seria se, de uma hora para outra, tudo estivesse diferente, por causa (Deus nos livre!) de um desastre natural, por exemplo.
As pessoas precisam mudar, sim. Mudar para melhor, no ano novo, a começar no ano-novo, que é o primeiro dia do mês e do ano. A rua também. Deve ser asfaltada (não assaltada, como já acontece, neste e noutros bairros, segundo ouço falar, de quase a rua inteira ser assaltada de uma vez), ganhar meios-fios e, enfim, as demais melhorias de infraestrutura urbana, direito de todos e dever do Estado.
Muita coisa mudou, contudo, na ortografia da língua portuguesa, que a partir de agora, a critério de quem escreve, mesmo na acepção de ciência ou disciplina, poderá ser grafada com iniciais minúsculas, como fiz aí atrás, ou com iniciais maiúsculas, Língua Portuguesa. Ambas as formas estarão corretas. Infra-estrutura mudou, como mudaram outras palavras. Agora é infraestrutura, sem hífen. Réu continua como antes, mas co-réu virou corréu, que o computador teima em não acentuar. Também pudera, parece fala do Nerso da Capitinga!
Idéia virou ideia, como assembléia virou assembleia. Heróico virou heroico, como enjôo, vôo e crêem viraram, respectivamente, enjoo, voo e creem, mas chapéu, réu, ré, má, fé, café, pôde (em oposição a pode), pôr (verbo) em oposição a por (preposição), e assim por diante, continuam a ser escritos como antes. A reforma ortográfica foi tímida, pequena e - penso, como pensam alguns gramáticos de nomeada - não melhora a escrita do idioma, mas, a despeito de tímida e pequena, alterou a grafia de muitas palavras e criou, por conseguinte, algumas dificuldades para muita gente.
Também continuam como antes ano-novo e ano novo, para provocar a acuidade adormecida de leitores que nunca souberam fazer a diferença entre a palavra composta e a expressão, pelo que se vê nos cartões de natal e outros escritos de fim de ano. Ano-novo ou ano-bom, palavra composta, designa a meia-noite (que não se confunde com meia noite) de 31 de dezembro, assim como o próprio dia 1.º janeiro, enquanto ano novo, expressão substantiva, designa o ano inteiro que começa, diferenciando-o de ano velho, o ano inteiro que findou. Meia-noite é a zero hora, enquanto meia noite é a metade da noite. Meio-dia é quando o ponteiro do relógio marca 12 horas, enquanto meio dia é a metade do dia. Assim era e assim continua.
A esta altura, o leitor deve estar se perguntando qual o porquê do título desta crônica, "Possível para Deus". Explico. É que minha primeira leitura, após o amanhecer do dia 1.º, foi esta de Lucas 18.27, uma newsletter, que recebi pela internet, da Sociedade Bíblica do Brasil: "Jesus respondeu: - O que é impossível para os seres humanos é possível para Deus." Newsletter, para quem não sabe, é uma mensagem do tipo mala-direta recebida pela rede mundial de computadores (internet). Ah! Alguém pode não saber o que é mala-direta. Tudo bem. Fica para depois, porque, se não, a crônica fica muito longa. E muitos não gostam.
Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 15h55
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ERRO VICÁRIO
"Não acredito. Eu não escrevi isso!". Essas foram minhas palavras quando abri o Correio do Tocantins, edição 1.847, de 30 de dezembro de 2008 a 2 de janeiro de 2009, para ler a minha crônica "O Estado e a Violência". É que lá está escrito: "Que hajam menos palavras e mais ações dos governantes em prol do bem comum. É disso que se precisa. É para isso que Estado existe." Ou seja, o verbo "haver" está no plural, "hajam", quando deveria estar no singular, "haja", uma vez que "haver", na acepção de "existir", é sempre impessoal. O verbo "existir", sim, é pessoal, mas o verbo "haver", não.
Não pus o verbo no plural, "hajam", mas, sim, no singular, "haja", porque, como disse, tal verbo, quando significa "existir", é impessoal. Foi assim que enviei o texto ao jornal. Também foi assim que o publiquei, no meu "blog" (http://valdinar.zip.net), no dia 27 de dezembro, às 16h2. Se eu tivesse me servido de "existir", em vez de "haver", teria escrito: "Que existam menos palavras e mais ações dos governantes em prol do bem comum. É disso que se precisa. É para isso que Estado existe." Ou seja, teria posto o verbo no plural, já que o verbo "existir" não é impessoal e, por isso, combina invariavelmente com o sujeito, simples ou composto que seja.
Logo, não errei. Alguém, no jornal, errou por mim ao editar o texto. Daí eu ter dado a esta crônica o título "Erro Vicário". Para quem, porventura, não sabe, "vicário" quer dizer algo que faz as vezes de outra coisa ou alguém que faz as vezes de outrem. É por isso que, por exemplo, na linguagem teológica, diz-se que o sacrifício de Jesus Cristo foi vicário. Jesus morreu na cruz em nosso lugar, para que, crendo que ele é o filho unigênito de Deus, sejamos salvos. Jesus morreu a morte dos pecadores para que estes tenham a vida eterna, ou seja, morrendo vicariamente pelos pecadores, ele pagou os pecados deles.
No caso da crônica, esse erro vicário constitui o que os gramáticos chamam de "ultracorreção", "hipercorreção" ou "hiperurbanismo", que é a preocupação de falar e escrever bem que resulta em erro. É o que se dá, por exemplo, quando alguém está certo, mas outrem pensa que não e, ao fazer a correção que julga necessária, comete um ou mais erros. Mas, isso são coisas da vida, notadamente da vida de quem gosta de escrever. Façamos, pois, uma gostosa limonada com esse limãozinho que a vida nos deu.
Concluindo, quero lembrar que, quando este texto sair no jornal, já estará vigorando a reforma ortográfica de 1990, que entrará em vigor em 1.º de janeiro de 2009 e da qual ouso discordar, por entender que não melhora a língua portuguesa. Concorde-se ou não com ela, o processo é irreversível, pelo menos por enquanto. E, assim, mesmo a contragosto, deixarei de usar o trema, exceto nos casos previstos no acordo ortográfico. Também, como advogado, passarei a escrever, por exemplo, "corréu" e "corré", em vez de "co-réu" e "co-ré", e assim por diante. Mas isso tudo, obviamente, merece outra crônica, que espero poder escrever. Aguarde-a, pois, o leitor.
Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 16h05
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