O FIM DO ANO E SUAS EMANAÇÕES
Chegou, mais uma vez, o fim do ano: encerramento ou adiamento de atividades, planos e preparativos de viagem, música natalina, ruas, praças e casas enfeitadas com árvores, lâmpadas e luzes coloridas. Como de costume, é hora de fazer as contas, ver os erros e acertos, os reveses sofridos e as vitórias alcançadas. Também de fazer planos para o ano que vem, acreditando, como sempre, que desta vez darão certo. É tempo de reflexão, bem como de dar e receber presentes.
José Sarney, um dos meus cronistas preferidos, nas crônicas "O Natal e a Graça da Vida", "Caçador de Sonhos" e "Papai Noel", fala da sua alegria de criança pelo tambor de latas que ganhou do Papai Noel, aos cinco anos de idade. Diz que foi o presente mais belo que já ganhou. Outros escritores também escreveram páginas memoráveis sobre o Natal. São tantos que nem dá para citar no espaço exíguo de uma crônica, nem esse o meu objetivo.
Na crônica "Papai Noel", de dezembro de 2007, Sarney diz a Papai Noel que não o perdoa pela bicicleta que lhe pediu e não ganhou. E nas crônicas "O Natal e a Graça da Vida" e "Caçador de Sonhos", lembra, dentre outras coisas, as conotações religiosas, que ele chama de Natal bíblico, algo que (eu o digo sem ter feito a estatística, é óbvio) tem desaparecido da imensa maioria dos lares que, no mundo inteiro, se dizem de fé cristã, não obstante se dizer que se comemora o nascimento de Jesus Cristo.
As razões disso são muitas e não vem ao caso enumerá-las ou discuti-las. A própria comemoração do Natal comporta discussão no meio religioso mais ortodoxo, pois a Bíblia nem sequer menciona a palavra Natal, narra o nascimento de Jesus Cristo, mas não cita a data nem manda comemorar. Pessoalmente, não vejo fundamentação bíblica para comemorar o Natal, mas não é disso que desejo tratar agora.
Quero dizer aqui tão-somente dos efeitos psicológicos, do enlevo que o fim de ano produz na gente. A ornamentação de residências, igrejas, casas comerciais, repartições e logradouros públicos, a alegria das pessoas, principalmente das crianças, o aflorar da solidariedade, os bons filmes, as músicas típicas do período, a esperança de recomeço no ano que vem, as realizações em perspectiva, tudo isso nos chama à reflexão. Religião à parte, abstraída a exacerbação do consumismo tão característica desses dias, vejo com bons olhos a solidariedade despertada, ainda que tão passageira.
Demais disso, deixando para trás as coisas ruins que aconteceram, o novo ano traz sempre a oportunidade de recomeçar com a experiência adquirida e com novas forças, a esperança de mudanças. Comigo é sempre assim (e creio que também o seja com as outras pessoas): a cada fim de ano, fico imaginando que o ano vindouro será bem melhor, que farei isto, farei aquilo, e assim por diante. A esperança, essa coisa bonita que nos acompanha do berço à sepultura, nunca morre, senão quando morremos também.
Aliás, é bom lembrar que a mudança de ano é algo convencional. O tempo existe por si mesmo, mas a sua contagem, fora a separação natural entre o dia e a noite, é mera convenção. Convencionou-se que o ano começa em janeiro, mas poderia muito bem ser em qualquer outro mês. Logo, mesmo passando de um ano para outro, as pessoas, governantes e governados, é que têm de mudar: a casa, a rua, o Sol, a Lua, o tempo com suas estações, continuarão os mesmos, como sempre.
Que Jesus, o Cristo de Deus, seja o árbitro no coração de cada pessoa no ano que está por vir. E que seja um ano realmente melhor. Que haja menos palavras e mais ações dos governantes em prol do bem comum. É disso que se precisa. É para isso que Estado existe.
Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 13h06
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