O GALO PAVAROTI E A GALINHA PIAF
Duas das almas generosas que me leram a crônica “Apenas para conversar”, disseram-se curiosas acerca do galo Pavaroti e da galinha Piaf, casal de galináceos a cuja morte me referi no último parágrafo do texto: o reverendo Alan Rennê Alexandrino Lima (Rennê com dois “n”), teólogo e atual pastor da minha igreja, e o professor doutor Gutemberg Guerra, agrônomo com doutoramento em Paris e professor da Universidade Federal do Pará, que atualmente cursa pós-doutorado em Nova Iorque, Estados Unidos da América.
Pois bem. Abrindo e fechando parêntesis, para ninguém pensar que escrevo erradamente a palavra Pavarotti, esclareço que, segundo jornais e revistas, o sobrenome italiano Pavarotti é escrito com dois “t”, mas sigo aqui, como fiz na crônica anterior, a grafia do Viégas, dono do galo, que propositadamente escreve sem dobrar essa consoante. A grafia dos antropônimos (nomes próprios de pessoas e, por extensão, de animais de estimação como neste caso), sujeita-se às regras ortográficas, mas já virou costume seguir o que, certo ou errado, esteja na certidão de nascimento.
Viégas, meu irmão maçom e amigo lá de Brasília, é cronista e missivista habitual (para que o leitor tenha idéia, ele chega a escrever à mão mais de 365 cartas por ano). Pessoa bondosa ao extremo, desnuda sua alma e fala com prazer, nas cartas que envia aos amigos e nas crônicas que escreve, sobre as árvores que cultiva no jardim e no quintal do Rancho dos Viégas, bem como dos animais de estimação que tem, dentre eles o galo Pavaroti. Do Pavaroti, aliás, ele gostava de falar, pois o velho Pava morreu, juntamente com a galinha Piaf, cujo nome todo era Edith Piaf. Pavaroti e Piaf morreram na noite de 8 para 9 de novembro de 2007, vítimas indefesas de duas cadelas vadias que caçaram onde não deviam.
As cadelas, uma do Viégas e a outra (mãe da primeira) pertencente à nora Adriana e ao filho Iram, rasgaram a tela protetora e, por mero instinto de cão caçador, mataram o galo e a galinha, abandonando-os em seguida, sem nada comer. Viégas, que já não anda muito bem de saúde, sentiu-se mal com a perda dos galináceos e quase deixou viúva minha cunhada Bel. Depois, mais ou menos resignado com o sentimento de perda, escreveu a crônica a que deu o título “Do Pavaroti e da Piaf... só saudades”, da qual transcrevo este rasgo: “Fiquei triste. A Bel, preocupada comigo. Tive recentemente um abalo no coração e não ando muito bem das coronárias. Logo notei no olhar dela que estava pensando com seus botões: Ai, meu Deus, não vai querer morrer agora este outro galo velho!”
Pelo que sei das cartas e crônicas, Viégas e Bel, cultivam no jardim e no quintal árvores e arbustos diversos: ipê-roxo, ipê-amarelo, buganvília, cajueiro, jaqueira, caramboleira, macieira, mandarina, coqueiro-anão, pinheiro-do-paraná, mussaenda, areca, begônia, hortênsia, gerânio, margarida, entrada-de-baile, onze-horas, maria-sem-vergonha, bananeira, manga-rosa, limoeiro, acerola, graviola, capim-santo, hortelã, erva-cidreira, vinagreira, dentre outros. Aí também vivem, graças à bondade dos Viégas, além dos os cães de guarda Bob e Bilu, e dos beija-flores que vêm e voltam livremente, outros habitantes não menos ilustres do reino animal: o sapo tio Brum, o velho rato Ranulfo, que mora no buraco ao pé do muro.
É assim o Viégas, cronista que pertence a duas academias de letras do Distrito Federal, pessoa de bem, amigo de homens, animais e plantas, apreciador das coisas simples da vida, dos pequenos assuntos da alma. Alias, não posso de deixar de registrar que a expressão “pequenos assuntos da alma” que agora me veio à mente é do prefácio do livro de crônicas Deus-dará, da escritora cearense Ana Miranda, romancista e cronista vigorosa, a qual diz que “devemos guardar em nós as minúcias da vida, as visões sonhadoras abertas pelos fatos, as notas sobre o nada, que podem ser o prelúdio do tudo, e o sempre, prelúdio do nunca”.
Ah, sim! Outra coisa... O Viégas, por falta de espaço, não pôde receber todos os galos que os destinatários das missivas e os leitores das crônicas prontamente lhe ofereceram para sucessão do Pavaroti. Está pensando em receber apenas um, cujo nome já escolheu: Cigano. É. O novo galo que, sucedendo o velho Pava, cantará no Rancho dos Viégas, lá em Sobradinho, Distrito Federal, será chamado Cigano.
Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 15h00
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