IMPUNIDADE E VIOLÊNCIA
“Só o crime se sente em segurança.” Essa frase, hoje mais verdadeira do que nunca antes, é de Rachel de Queiroz, encerrando a crônica “Os salteadores à solta na floresta urbana”, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, de 2 de novembro de 1990, e pela Revista da Academia Brasileira de Letras (ano 90, volume 160), edição de julho a dezembro de 1990. É a penúltima frase do texto, com a qual Rachel protesta contra a violência impune dos maus a que estão submetidos os bons.
Dias depois, Abgar Renault, imortal da Academia Brasileira de Letras como Rachel, faria menção especial dessa crônica, na sessão de 21 de novembro de 1990 da Academia, dedicada à comemoração dos 80 anos de idade da autora. Ele, aliás, não apenas mencionou a crônica “Os salteadores à solta na floresta urbana”. Fez mais do que isso: ele a leu. E, do alto da sua autoridade de imortal, a classificou literariamente, dizendo “que é uma página realmente extraordinária em toda nossa literatura, embora tenha sido escrita como uma crônica”.
É fato, e contra fatos não há argumentos. Na crônica, após sumariar a insegurança que reinou em todos os sentidos nos séculos passados, Rachel de Queiroz, indignada, fala da insegurança e da violência geradas pela impunidade de nossos dias. Semelhantemente, 2.700 anos atrás (por volta de 710 antes de Cristo), como diz a Bíblia, falou o profeta Oséias: “O que prevalece é perjurar, mentir, matar, furtar e adulterar, e há arrombamentos e homicídios sobre homicídios” (Oséias 4.2).
Rachel chora o choro de todos nós, brasileiros do século XXI: “A casa do cidadão deixou de ser o seu castelo. Os transportes públicos são mais vulneráveis a ladrões e assassinos que outrora as florestas infestadas de salteadores. O assaltante vem te buscar na tua cama, na cozinha, no escritório. O recesso do lar passou a ser uma metáfora cômica. As prodigiosas invenções da ciência não nos protegem em nada. O homem anda no espaço sideral com menos risco do que tomando um ônibus na sua rua. Não há habitante de qualquer cidade que não tenha a contar suas experiências pessoais de violência, assalto, tiros, facadas, seqüestro.”
O que ela descreve é o atual cotidiano amargurado de todos: a violência que afronta, assusta, humilha e mata, perpetrada por seres indignos da classificação como humanos. Aliás, o indivíduo que, na baixeza de sua sanha cruel e imunda, assalta, estupra ou comete outros delitos da atualidade não pode ser classificado como animal irracional, pois os animais irracionais não cometem tais barbaridades.
Não faz muito tempo, a casa, como a igreja, era tida por lugar seguro, acolhedor e protetor. Prova disso era o dizer popular que já não tem sentido algum: “Em casa, na cama, ou na igreja, rezando, é que não estava.” Dizia-se isso ante a notícia de que algo ruim acontecera a alguém, querendo-se dizer que em casa e na igreja a pessoa estaria a salvo e protegida. Bons tempos aqueles! A casa, em nossos dias, já não é de fato o asilo inviolável, o recanto indevassável e protetor. Além da violência física, que dizer das escutas telefônicas clandestinas? Rachel tinha razão: “Só o crime se sente em segurança.”
Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 16h46
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OS ANOS CORROMPEM O SONHO
Li Saudades Mortas, de José Saney, imortal da Academia Brasileira de Letras. É um livro de poemas e sublinhei com caneta vermelha, como sempre faço, inúmeros versos, frases, orações, períodos. Faço isso já há alguns anos. Meus livros são riscados de caneta vermelha, com o que acrescento realce àquilo que me chama a atenção ou entendo ser essencial no texto que leio. De Sarney, também estou lendo os livros de crônicas Canto de Página e Sexta-feira, Folha. A crônica é o meu gênero literário preferido, e gosto de Sarney como cronista.
Uma frase que muito me chamou a atenção em Saudades Mortas foi esta: “Os anos corrompem o sonho.” É um verso do poema "A menina do retrato". Essa frase, que também é oração e período simples (lembrando aqui o trivial da Gramática: nem toda frase é oração, nem todo período é simples), tem significado profundo, dentro e fora do contexto.
Os anos têm-me corrompido os sonhos, e sonho corrompido não é sonho; pelo menos deixa de ser sonho puro em qualquer das acepções da palavra. Os anos matam os sonhos, quando não os concretizam. E muitos dos meus sonhos têm morrido, dia após dia, até porque o ser humano muda de idéia com a idade, não só porque se desilude, mas também porque amadurece. “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade”, disse na profundeza de sua angústia, desilusão e também sabedoria, ao que tudo indica, no fim da vida, o escritor de Eclesiastes.
Triste do homem, da mulher ou, genericamente, do ser humano que já não tem sonhos vivos, para vivê-los. Ter os sonhos mortos dia após dia é também morrer com eles, pois somente na busca de realização dos sonhos é que o ser humano se encontra, vive. Daí a imensidade (imensidão, se alguém assim o prefere) dos que se perdem! Deixar de sonhar é deixar de ser humano, no mínimo, deixar de ser um ser humano normal.
Eu tenho sonhos, ainda os tenho. Mas, às vezes, me vejo entediado e desiludido com as pessoas, o discurso religioso, o discurso político, o bandido que se faz passar por autoridade com laivos de pureza e honestidade de propósitos, e que é reconhecido como tal, como autoridade. Há muito, tenho ao mesmo tempo medo e vergonha do Estado, sentimentos estes que me atormentam em duas dimensões, a saber: como agente do governo e como povo. Sem hipocrisia, sem falso moralismo, mas também sem ingenuidade, sem covardia, sem papas na língua: o Brasil não é um país sério!
Estado é povo, governo e território. E, por causa disso, algumas pessoas, como é o meu caso, estão ligadas duas vezes ao mesmo tempo a esse tal monstro, tantas vezes imoral, corrupto e omisso. A ele se ligam compulsoriamente como seus habitantes e como seus agentes.
Quem, pelo menos uma vez na vida, não sentiu vergonha de ser brasileiro, diante de tantos desmandos, maldade, corrupção, imoralidade, e omissão? Só mesmo um nefelibata (também se diz nefelíbata), que nem sabe onde vive, porque está sempre no mundo da lua! O Estado brasileiro, na acepção mais ampla do termo (município, estado-membro e União) e suas instituições, também quase sempre imorais, corruptas e omissas, despertam-me, além do medo e do asco que já me são crônicos, sentimentos outros os mais primitivos.
Tenho ojeriza a essa coisa chamada Estado (povo, governo e território), porque ela é culpada, na pessoa do povo e do governo, por quase tudo de ruim que existe. Ao contrário do que ingenuamente se pensa ou hipocritamente se diz, a maioria das pessoas, governantes ou governadas, não são boas e honestas: são imorais, corruptas, covardes e omissas. Negar isso é tentar cobrir o Sol com a peneira, o que, nem é necessário dizer, é impossível.
Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 15h39
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