Estranha Mulher
Meu fraternal agradecimento ao Ir.·. Innocêncio de Jesus Viégas, de Brasília, que me presenteou com um exemplar da edição de janeiro-fevereiro de 2007 (ano XXVIII – n.º 187) do jornal maçônico Liberdade e União, órgão informativo da Loja Maçônica “Liberdade e União” - n.º 1158, de Goiânia. E, como aprendiz maçom da Loja Maçônica “Firmeza e Humanidade Marabaense” – n.º 6, de Marabá, jurisdicionada da Grande Loja Maçônica do Estado do Pará, compartilho com meus leitores o belo poema "Estranha mulher", de autoria da poetisa Maria Ivone Corrêa Dias, da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (AFLAG), pérola publicada na dita edição.
O texto foi fracionado em duas partes, porque não dava para publicar de uma só vez. Excedia o número de caracteres permitido pelo blog.
Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 16h09
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Estranha Mulher
Eu sei que ela existe,
(embora eu nunca a veja...)
mulher estranha de mãos imensas,
semeando esmolas, misteriosamente,
cercada de respeito, de letras e de temor
as mãos dessa mulher têm forma de amor
mãos que ninam os berços da orfandade,
mãos que põem luz na noite da viuvez,
mãos que cortam o erro, como espadas
mãos que abençoam, que denunciam crime
e que trazem, no gesto que redime,
toda a unção das próprias mãos de Deus.
Essa mulher tem a graça das Acácias,
a ternura que consola a dor alheia,
o bem que ela faz gravando só na areia,
vem a onda e o leva ao seio do grande Artista
que vela sobre o triste, o fraco e o oprimido.
Essa mulher, se escuta algum gemido,
se pressente a dor, a injustiça, a queda,
como o vento desloca-se flecha ousada e firme
na pressa de salvar, servir e se esconder.
Ela está de pé às portas da miséria...
Junto ao incapaz, ela o braço potente,
amparo ela o é ao lado do indigente
arrimo da velhice, luz da juventude,
e ante a própria morte, aos pés do ataúde,
essa mulher é esteio, é força e segurança.
Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 16h05
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Estranha Mulher
Continuação do poema "Estranha mulher", de Maria Ivone Corrêa Dias:
Seus braços, quais as colunas talhadas na rocha,
já sacudiram tronos, muralhas e cidadelas,
já aniquilaram grandes, exaltando os pequenos,
já fizeram ruir a empáfia dos falsos nobres,
já libertaram escravos e enriqueceram os pobres,
já ergueram nações sobre cinzas de impérios.
Ela já viu morrer os filhos em prol da liberdade,
e, embora chorando sobre seus tristes restos,
seus braços ergueu, em sagrado protesto,
a bandeira santa do amor universal.
De sua mesa farta, tal como em família,
reparte ela o pão da graça feminina,
sem humilhar aquele a quem sobrou pobreza,
e sua mão direita, segundo o evangelho,
jamais presenciou o que a esquerda fez.
A ordem do Senhor: “Amai-vos uns aos outros”
à frente do seu templo essa mulher gravou,
e como irmãos se tratam milhões de filhos seus,
homens predestinados, cidadãos benditos
que não se envergonham – oh não – de crer em Deus.
Essa mulher estranha, sem jóias e sem fraqueza
essa mulher estranha, temida e venerada,
mil vezes perseguida, vencendo com galhardia,
é cidadã do mundo, é a MAÇONARIA.
Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 16h01
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Ab imo pectore, meu pai
Meu pai, João Belizário de Souza, faleceu dia 20 de janeiro de 2007, às 15h30, aproximadamente, no Hospital Municipal de Marabá. Causa mortis: pneumonia profunda. Morte com antecedentes patológicos, morte natural, a que as pessoas mais simples chamam morte morrida, para diferenciar da morte violenta ou provocada (homicídio, suicídio, acidente).
Natural ou violenta, a morte é sempre terrível, inaceitável, aterradora. “Das coisas terríveis, a mais terrível é a morte, porque é uma, porque é certa e porque é imprevisível”, escreve em sua Medicina Legal o professor Genival Veloso de França.
Durante o velório, inúmeras vezes (calado, mas traspassado pela dor do indizível e aterrador sentimento de perda, acompanhado do característico nó na garganta), olho o corpo inerte do meu pai. Agora, sem a vida, tudo torna imensamente frágil o mais forte de todos os homens, o mais corajoso, o mais admirável, aquele que ao longo dos tempos foi meu herói, notadamente nos anos sofridos, mas dourados, da minha infância paupérrima. Seu rosto pálido, os lábios desidratados, os olhos fechados, as mãos magras e frias, o semblante das pessoas ao redor e toda a gravidade do ambiente exprimem de forma inconfundível, mesmo sem qualquer palavra (silêncio eloqüente), a cruel realidade que eu muito gostaria fosse um pesadelo apenas: meu pai está morto.
Sou pai e sei, por isso, o que meus filhos são para mim, assim como posso, com efeito, imaginar com a exatidão do conhecimento de causa o que eu e meus irmãos fomos para meu pai, notadamente quando éramos crianças. Seus sonhos, anseios, aspirações a nosso respeito; seus medos, receios, suas angústias. Filho mais velho que sou, conheci antes que meus irmãos e mais do que eles os sonhos dele a nosso respeito, a respeito da vida como um todo. Mais do que isso, ele os compartilhava comigo: também os sonhei. Sonhos que não se concretizaram!
Calado, fico a pensar nas muitas vezes em que, certamente, aquelas mãos agora inertes e sem vida, então cheias de vigor, me seguraram, me acariciaram, me jogaram para o alto, me protegeram. Quantas vezes, sem dúvida, me beijaram a fronte, os cabelos, enfim, o corpo inteiro de criança, então cheios de vida e vigor, aqueles lábios agora ressequidos e mortos. A morte, ah, como é terrível a morte!
Não digo nada; fico calado. Apenas murmuro, de mim para mim mesmo, no meu sentimento profundo da impotência de todos diante do mais temível inimigo do homem: a morte. Meu pai, meu pobre pai, a morte tirou você deste mundo, encerrando hoje os dias de sua sofrida história, mas não será capaz de tirá-lo do meu coração! Vivo ou morto, o pai é sempre pai, como, viva ou morta, a mãe é sempre mãe, o filho é sempre filho.
Ah, meu pai, como gostaria de descrever no texto mais lindo de todos, fosse em prosa ou em versos, seu caráter, sua pessoa, sua inteligência, seus sonhos de toda a vida que não se concretizaram, sua figura de homem pobre, simples, sofredor, mas, acima de tudo, lutador, sonhador, trabalhador impoluto, pai extremado!
No entanto, malgrado o anelo do meu coração, não consigo fazê-lo: fracassei! Pai, eu fracassei! Eu, que, não obstante as tentativas que fizera, jamais tive palavras para descrever no texto mais lindo, fosse em prosa ou em versos, como acalentei ao longo de anos, a castanheira, fracassei mais uma vez: tudo que escrever para descrevê-lo será inexpressivo, incompleto! Só me resta, portanto, dizer, sem palavras bonitas, mas ab imo pectore: Pai, você foi, é e sempre será meu herói!
Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 11h50
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