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Blog do Dr. Valdinar M. de Souza
 


Exploração Humana e Desigualdades Sociais

O homem, a despeito de sua decantada racionalidade, é o único animal que perpetra, com ou sem justificativa, toda sorte de atentados contra seu semelhante: discrimina, explora, tortura, mata.

 

A exploração econômica é, sem dúvida, um dos mais abjetos dentre tais atos, não obstante, pela freqüência e variedades de formas em que se dá, já não cause impacto e indignação. Com efeito, a exploração do homem pelo homem, a cada dia mais acentuada, a concentração de riquezas e as conseqüentes desigualdades sociais são os maiores males da sociedade moderna.

 

É forçoso admitir que a exploração não é um fenômeno moderno, até porque a História nos conta que começou no fim do período Neolítico, com o surgimento da propriedade privada e a mão-de-obra escrava. Não se pode negar, contudo, seu recrudescimento com a invenção do capitalismo, sistema iníquo de produção em que, no século XVIII, a minoria de mais fortes apoderou-se, per faz et nefas, das riquezas (meios de produção e a própria produção, como diz a Economia) e transformou em miseráveis milhões e milhões de desapossados, aos quais restou tão-somente a força de trabalho para, compulsoriamente, ser vendida por preço sempre injusto, porque fixado pelo comprador.

 

Há, além disso, um pormenor interessante: certas formas de exploração sempre foram vistas como algo normal pela sociedade respectiva. Para o escravocrata das Idades Antiga, Média e Moderna, a escravidão era tão normal quanto é a mais-valia para o capitalista da Idade Contemporânea, com a diferença de que a escravidão era declarada ao passo que a mais-valia é dissimulada.

 

Abolida na sua forma mais primitiva, a exploração permaneceu até nossos dias com a agravante da dissimulação, o que é pior, porque mais difícil de ser combatida. Nunca se explorou tanto o semelhante, fingindo-se, da forma mais cínica, servi-lo. Foi certamente por ser declarada que a escravidão, apesar de considerada normal pela classe dominante, veio a desaparecer ante a resistência e a luta da classe dominada.

 

Mas não houve apenas a resistência e a luta dos dominados. Homens livres, ao longo da História, condenaram a exploração e agiram contra ela. O profeta hebreu Isaías, na Idade Antiga, combatendo a concentração de riquezas, por volta de 700 anos antes de Cristo, escreveu: “Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra!” (Isaías 5.8).

 

Cerca de 2.300 anos depois, o padre Antônio Vieira, o mais famoso orador sacro de língua portuguesa de seu tempo, apesar de concordar com a escravidão, combatia tenazmente, por paradoxal que pareça, a exploração do homem pelo homem. Em seu famoso e elegante Sermão aos peixes, por exemplo, ele dizia: “... Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.”

 

Nos dias atuais três fatores concorrem para o aumento da exploração econômica do homem: a ideologia capitalista, que embota a mente dos indivíduos, levando-os a buscarem avidamente mais e mais lucros; a argúcia do explorador e a ignorância do explorado.

 

É estarrecedor pensar que, embora às portas do século XXI, milhões e milhões de pessoas exploradas diariamente de forma vil, para citar tão-somente os assalariados brasileiros, não saibam sequer da existência do vocábulo mais-valia, quanto mais de seu significado. Não saibam sequer que são explorados! Termos e expressões como capitalismo, socialismo, comunismo, liberalismo, neoliberalismo, sistema ou modo de produção, meios de produção e correlatos têm existência desconhecida e, quando não a existência, o significado.

 

Não é necessário ser socialista, basta refletir sobre a situação ao nosso redor para reconhecer essa deplorável situação. O mais convicto capitalista, ainda que não externe admiti-lo, no íntimo reconhecerá que a exploração hodierna – tomando aqui palavras do sociólogo Paulo Martinez, professor da Faculdade de Administração de Marília, São Paulo, e escritor – é incompatível seja com o grau de desenvolvimento das forças produtivas, como entendia Karl Marx, seja com os preceitos éticos do cristianismo, no entendimento de Saint-Simon, seja com os princípios de justiça na distribuição da riqueza produzida pelo esforço coletivo, como defendia Robert Owen.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 17h43
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