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Blog do Dr. Valdinar M. de Souza
 


Xinguara: 30 anos de emancipação

Conquanto pareça ter sido ontem, já se passaram trinta anos e eu não poderia deixar passar em branco, sem escrever algo sobre 13 de maio de 1982, que, diferentemente de hoje, 13 de maio de 2012, não caiu no domingo. Foi, com efeito, um dia útil, porque nele o governador sancionou a lei de emancipação político-administrativa de Xinguara, como também dos distritos de Redenção e Rio Maria, a Lei n.º 5.028. Uma canetada do governador e três novos municípios, desmembrados de Conceição do Araguaia, tal qual decidira o povo em plebiscito e aprovara a Assembleia Legislativa.

 

Há, bem o sabemos, um 13 de maio famoso na História do Brasil, o de 1888. A data da lei é a mesma da abolição da escravatura. Ironia? Homenagem? Mera coincidência? Sei lá! Tenho para mim que foi um ato irônico do governador do Estado, coronel Alacid da Silva Nunes. Assinar a emancipação político-administrativa desses distritos, criando os respectivos municípios, no dia da abolição da escravatura foi ironia do governador do Estado, que rompera politicamente com o presidente da República, general João Batista de Oliveira Figueiredo, e com o prefeito de Conceição do Araguaia, Dr. Giovanni Correia Queiroz.

 

Figueiredo, Alacid e Giovanni pertenciam ao mesmo partido político – da direita, é claro, nem era necessário dizer –, mas Alacid resolvera romper com Figueiredo, mudando de partido, o que, para a época, era como cometer crime de lesa-pátria. Giovanni, é claro, permaneceu no partido do presidente da República, somente bem depois foi que mudou. Lembro-me de que, à época, as relações entre o governador e o prefeito ficaram tensas. Por isso, embora Giovanni, como prefeito, fosse favorável à emancipação, Alacid aproveitara para xingá-lo, simbólica e sutilmente que fosse, de escravagista. Isso tudo, porém, é mera suposição minha.

 

Assisti a tudo isso como servidor público municipal de Conceição do Araguaia, lotado em Xinguara. Foram, para todos nós, tempos dourados de muita esperança. A despeito de não me envolver com política e me dedicar apenas às atividades funcionais, tinha muitas esperanças, até porque, embora já contasse os 22 anos, eu mais parecia um adolescente, física e mentalmente. Ansiávamos todos por mudanças tidas como certas, não só pela emancipação político-administrativa da cidade, mas principalmente pelos sinais do fim da ditadura, já agonizante.

 

Lembra-me que bem jovens também eram o reverendo Erisval Moura de Sousa, agente distrital de Xinguara, e sua linda mulher, a professora Luz Marina. Erisval – que, além de pastor da Igreja Cristã Evangélica, também era venerável mestre da Loja Maçônica União e Fraternidade Xinguarense – foi quem me levou para trabalhar na Agência Distrital de Xinguara, na subprefeitura, como o povo dizia. A ele, pois, minha profunda gratidão, hoje e sempre.

 

Hoje é aniversário de Xinguara, que completa 30 anos de emancipação, daí as minhas lembranças. Sou assumidamente saudosista e me lembro, com saudade, de quase tudo: lugares, pessoas, instituições e acontecimentos. Decidi citar apenas Erisval e Luz Marina, mas são muitas as pessoas de quem agora me lembro e tenho saudade, muita saudade. Puxa vida, quanto tempo! Parece que foi ontem, mas não foi. O tempo passou, e muito. Várias pessoas, também! Impossível não sentir o nó na garganta.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 13h17
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O Padroeiro de Xinguara

Dia 1.º de maio é o dia do padroeiro de Xinguara, definido por lei municipal, segundo as regras e princípios do ordenamento jurídico pátrio. É que, no Brasil, os feriados municipais são definidos por lei dos respectivos municípios, os feriados estaduais, por lei dos respectivos estados e, por fim, os feriados nacionais, por lei da União, lei federal.

 

Isso é óbvio, creio que quase todo o mundo sabe. Há, contudo, particularidades importantes em cada história. Aliás, isso também é óbvio, mas, se nos for vedado dizer ou escrever o óbvio, muita coisa interessante deixará de ser dita ou escrita. Nada tenho, por conseguinte, contra o dizer ou escrever o óbvio quando for necessário, o que vale também para a cacofonia, assunto de que deverei tratar em outra crônica.

 

No caso de Xinguara, por exemplo, aconteceu algo que muitos não sabem e vou contar agora, haja vista que hoje é 1.º de maio de 2012 e eu, a despeito de morar em Marabá, não me esqueço de Xinguara, onde morei de dezembro de 1980 a novembro de 1996, como já registrei em outras crônicas. A repetição é didática, não obstante às vezes cansativa.

 

Pois bem. Na primeira legislatura da Câmara Municipal de Xinguara, ainda em 1983, salvo engano, o vereador Geraldo Gonçalves Peres apresentou um projeto de lei dos feriados municipais xinguarenses, que foi aprovado pela Câmara e sancionado pelo prefeito, transformando-se em lei. E lei é lei. Como sabemos, “dura lex, sed lex” (a lei é dura, mas é lei), já dizia os romanos. A lei tem que ser cumprida, embora, como também o sabemos, isso nem sempre aconteça.

 

Lá vai a coisa. A Igreja Católica decidira que o padroeiro de Xinguara seria São José e, por isso, o Geraldo Peres, ao fazer o projeto de lei, escreveu que o dia do padroeiro era 19 de março. Daí surgiu o impasse. Durante alguns anos, houve um conflito de datas: 19 de março, a data prevista na lei, e 1.º de maio, a data comemorada pela Igreja Católica. Ninguém sabia, ao que me parece, como resolver o problema. Comércio, indústria e serviços eram compelidos a guardar um dia e a Igreja guardava outro.

 

Pensei comigo mesmo (e até o disse, com uma pontinha de ironia, ao prefeito, a colegas de Prefeitura à época e a vereador): “Ora, o santo é da Igreja. Então, em vez de ficar discutindo, perguntemos à Igreja qual é o dia dele. Em matéria de santo, quem tem autoridade é a Igreja.” E mandei brasa. Enviamos um ofício ao padre, expondo o problema e perguntando a ele qual, afinal, era o dia.

 

O padre, de cujo nome já não me lembro, respondeu-me, também por escrito, dizendo que, de fato, 19 de março é dia de São José, mas como pai de Jesus, ao passo que 1.º de maio é dia de São José, como carpinteiro, e a Igreja, optando pela causa operária, escolheu São José para padroeiro de Xinguara, foi como carpinteiro, não como pai de Jesus.

 

Redigi e datilografei um projeto de lei, alterando a redação da lei dos feriados municipais de Xinguara, que o prefeito Itamar Rodrigues Mendonça assinou. Enviado à Câmara, foi aprovado e o prefeito o sancionou, transformando-o em lei. Pronto, estava resolvida questão. Já contei muitas vezes essa história aqui Marabá, quando preciso ilustrar palestra ou conversa.

 

É isto. Se a pessoa tem um problema médico, deve procurar o médico, não procurar o engenheiro, pois não dará certo jamais. Se for um problema de Engenharia, chamar o engenheiro, não chamar o contador nem o advogado, porque não dará certo. E assim por diante. Quem tem autoridade em matéria de santo é a Igreja, não é o legislador. Simples assim. Mas há quem goste de pensar que é diferente. Aí complica. E complica sem necessidade.      



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 16h53
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Crimes e atrocidades em nome da religião

Crimes, preconceito, intolerância e atrocidades de toda a ordem têm sido perpetrados em nome da religião, no correr das eras. Eu tenho medo, muito medo, dos donos da verdade. É terrível isso!

 

Ninguém pense, contudo, que sou ou estou me tornando antirreligioso. Não, eu só me dou o direito de pensar, de raciocinar e de não aceitar calado tudo aquilo de que discordo e que muitas vezes, em nome da religião e de outras tantas verdades, querem impor a tudo e a todos.

 

Não, eu não aceito. Por formação acadêmica, por convicções religiosas e filosóficas e pelas minhas idiossincrasias, pela índole pessoal mesma. Usando um pouco (talvez muito) de gíria: sou advogado, sou maçom e sou vacinado. Não gosto de gente debochada, claro, mas não estou nem aí para hereges, preconceituosos, intolerantes e coisas que o valham.

 

Como diz, com muita sabedoria, Marilena Chaui: "A verdade é, ao mesmo tempo, frágil e poderosa. Frágil porque os poderes estabelecidos podem destruí-la, assim como as mudanças teóricas podem substituí-la por outra. Poderosa, porque a exigência do verdadeiro é o que dá sentido à existência humana."

 

Concordo com Marilena Chaui. Mas, se fosse o caso, poderia discordar. Sim, por que não? Eu sou assim, não sei os outros crentes. Só para encerrar, mas sem nexo algum talvez, faço minhas as palavras de Fagundes Varela, no "Cântico do Calvário", vazadas neste verso: "Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem!"



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 23h10
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Domingo, mais que os demais, dia de sossego

Bom dia, Xinguara! Bom dia, Marabá! Bom dia, meus amigos do Facebook! Bom dia, leitores dos meus blogues! A todos um domingo cheio de paz, harmonia, alegrias, realizações e felicidade. Domingo é dia de descanso para a maioria da população brasileira, que, por ser cristã, o tem como dia de guarda, como o dia do Senhor. Aliás, como sabemos, "domingo" vem do latim, com essa significação.

 

O primeiro passo para que consigamos tudo isso é cada um ter em mente que seu direito termina onde começa o direito alheio. Não se esquecer, por exemplo, de que o seu maldito aparelho de som fica em sua casa, mas o som produzido, como é um fenômeno físico, se propaga no ar e vai perturbar o sossego alheio em um raio de dezenas e até centenas de metros de distância. O som, o maldito som em alto volume, não fica dentro da casa do infeliz infrator que o produz.

 

Vamos viver sossegadamente e permitir que o outro, o semelhante, viva! A vida é muito curta, para ser estragada com sofrimentos desnecessários. Não perturbe a ninguém, não prejudique os outros, não procure complicações para sua vida nem para a vida dos outros! Viva a sua vida. Faça o bem a todos, na medida de suas possibilidades. Se não puder fazer o bem, então, pelo menos, não faça o mal.

 

Não procure complicações, porque quem procura encontra. Quem planta vento colhe tempestade. Isso é bíblico. A cada ação corresponde uma reação, igual e contrária. Isso é científico. Lembre-se de que a lei penal assegura a legítima defesa, o que autoriza alguém a matar, se matar for o resultado da ação daquele que age, usando moderadamente dos meios necessários, para repelir agressão injusta – atual ou iminente – a direito próprio ou alheio.

 

Aproveite bem seu dia de hoje, não perca essa oportunidade! Empregando o conselho do epicurista Horácio, que foi dado em outro contexto, mas também serve para este: "Carpe diem."



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 23h09
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O rio do tempo e o oceano das eras

É impossível segurar o tempo: ele se vai, queiramos ou não. O tempo passa inexoravelmente e nós também, querendo ou não. Ontem eu era menino, hoje sou quase idoso. Morremos todos, indiferentemente, tanto os preocupados quantos os despreocupados. Penso que bom mesmo é gozar a vida, porque ela um dia, que pode estar próximo ou distante, terminará.

 

Diz a ciência – todos nós o sabemos – que os preocupados ou ansiosos morrem mais depressa. Não sei se é verdade, não quero discutir isso nem posso, academicamente, fazê-lo, porque não sou médico nem biólogo nem psicólogo nem qualquer outra autoridade no assunto. Presumo que esses profissionais o sejam. A coisa, contudo, parece muito lógica. Basta, portanto, raciocinar um pouco e logo se chega a essa conclusão.

 

A Bíblia – que não é livro de ciência e, por conseguinte, seus ensinamentos são aceitos pela fé ou rejeitados pela ausência dela – tem recomendações contundentes sobre a matéria. “Qual de vós poderá, com as suas preocupações, acrescentar uma única hora ao curso de sua vida?” (Mt 6.27). E, logo mais à frente: “Portanto, não andeis ansiosos pelo dia de amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal” (Mt 6.34). Há, claro, outras versões, que dizem a mesma coisa com outras palavras.

 

Isso, todavia, é matéria de fé – repito. E eu também não quero discutir a fé. De jeito nenhum. Não quero, não me interessa. Há muito, cheguei à conclusão de que não devo fazê-lo. As pessoas, não raro, são extremamente arrogantes em matéria de fé, crença ou descrença e eu ando enojado de arrogantes. Eu tenho medo, muito medo, dos donos da verdade. Até porque tenho convicção – e esta, asseguro, absoluta – de que a verdade não tem dono.

 

Não quero aqui discutir coisa alguma. Escrevo tão somente por escrever, embora acredite no que escrevo. Quem quiser que tire suas conclusões. Apenas me lembrei do rio do tempo e do oceano das eras, expressões que designam o passado remoto. Uma, a primeira, aprendi de Rubem Alves, lendo uma de suas belas crônicas; a outra, do autor de um livro de Introdução à Ciência do Direito, de cujo nome, infelizmente, no momento não me lembro.

 

Tenho apego ao passado e carinho especial por ele. E acredito na teoria do meu amigo Liberato Diniz Barroso, lá de Belém do Pará. Para quem não lembra, resgato aqui o que ele deixou poeticamente registrado, dia 6 de abril de 2012, em comentário do Facebook: “Tenho uma teoria meio maluca que cultivo desde os tempos etílicos: o tempo que passou está guardado em algum lugar, que poucos descobriram. E que pode, a qualquer momento, voltar.”

 

É verdade! Ih, verdade!?... Ah!... Dizem, academicamente, que há verdades socialmente constituídas e verdades socialmente construídas, que dizem respeito, respectivamente, aos fatos que existem apenas em virtude de nossas crenças e aos que existem independentemente delas. Isso leva a outra bela e profunda discussão da gostosa seara da Filosofia, a das concepções de verdade. Isso, contudo, é matéria para discussão em outro foro, porque não sou filósofo e, demais disso, nem todo leitor gosta dessas discussões. Mas, quem disse que eu quero discutir alguma coisa?...



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 00h51
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Tarde da Crônica na Escola do Sesi

Literatura é a arte de transpor a vida real para a ficção, mas a crônica é literatura de boa qualidade, sem ser ficção. Mais que feliz, portanto, foi a iniciativa pedagógica da Escola “Mário Thomazelli”, do Serviço Social da Indústria (Sesi) em Marabá, de trabalhar esse gênero textual com as turmas da quarta série do ensino fundamental. São duas turmas envolvidas no projeto pedagógico, a da Professora Eliana Neves e a do Professor Wynklyns Lima. E delas sairão bons cronistas, que, dentro em breve, estarão escrevendo em blogues, jornais e revistas. Sem exagero e com inerrante convicção o afirmo.

 

 O leitor, por certo, está a indagar por que escrevo com essa convicção. A resposta é simples. Escrevo isso porque tive a felicidade de dar uma palestra sobre crônica, para as duas turmas, na presença de ambos os professores, dia 12 de abril de 2012, quinta-feira passada, à tarde, atendendo ao honroso convite que me foi feito pelo Professor Wynklyns, meu amigo desde os tempos da Universidade Federal do Pará, onde estudei Direito e ele estudou Pedagogia. Aliás, da mesma época e nas mesmas circunstâncias, também conheço a diretora da escola, Professora Claudiana Guido.

 

Fiquei felicíssimo, porque saí de lá comovido e encantado com a atenção e amabilidade das crianças. A palestra foi dada como parte das atividades do projeto que,  oficialmente, está sendo desenvolvido pela instituição. Assim, além dos dois professores, presentes do começo ao fim, também nos prestigiaram, assistindo a parte da palestra, as Professoras Claudiana Guido, diretora, e Saionara Razera, secretária. Mas eu me apaixonei mesmo foi pelo carinho e atenção das crianças, que, durante todo o tempo, demonstraram interesse e entusiasmo no mais profundo sentido dessas palavras.

 

Foi, para mim, muito gratificante. Ver ali o reconhecimento e a aceitação da minha humilde obra literária como cronista trouxe-me o incentivo necessário para, se vida e saúde tiver, continuar cronicando por mais décadas e décadas. A alegria e o entusiasmo com que, por exemplo, a Professora Saionara falou da minha crônica “A boca denuncia o coração”, escrita para a revista Foco Carajás, lida por ela recentemente em um consultório médico, me deixou profundamente sensibilizado e agradecido. De igual modo, a leitura pelo Professor Wynklyns da minha crônica “O tempo e a coisa”, do livro Crônicas do Cotidiano, publicado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores, do Rio de Janeiro, em agosto de 2011.

 

Após a palestra, tive a felicidade de conhecer, na sala de aulas do Professor Wynklyns, as crônicas escritas pelos alunos à guisa de atividades, e, como não poderia deixar de ser, fiquei deveras entusiasmado pela produção daquelas crianças. Não tenho dúvida – repito – de que dali sairão bons cronistas. Os trabalhos produzidos por eles demonstram, de forma inequívoca, a existência de capacidades e vocações para a arte da palavra escrita. Basta tão somente que sejam apoiadas e, por conseguinte, desenvolvidas.  

 

Registro em crônica, portanto, meu agradecimento especial e sinceros parabéns a docentes e discentes da Escola “Mário Thomazelli” envolvidos na iniciativa. Agradecimento, pela oportunidade que me deram de conhecer e poder contribuir, um pouquinho só que tenha sido, para a formação de tão lindas, importantes e amáveis criaturinhas, que ficaram para sempre no meu coração. Parabéns, pela certeza inabalável de que a instituição está no caminho certo e faz educação e ensino de boa qualidade. Ah, como teria sido bom se tivesse eu tido essa oportunidade – que não tive – na minha quarta série do ensino fundamental!

 

Ah, preciso encerrar e, por isso, encerro!  Vou fazê-lo, contudo, citando o que escreveu Joaquim Ferreira dos Santos, na introdução do livro As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, que diz: “A crônica não quer abafar ninguém, só quer mostrar que faz literatura também. Textos feitos para o momento e que, pela qualidade, vão ficar para sempre.”  

 

 



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 17h40
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Esperança malograda

 

Era 25 de junho de 1996. Recém-aprovado no vestibular para Direito da Universidade Federal do Pará – campus de Marabá, eu aguardava na Prefeitura Municipal de Xinguara o início das aulas, quando mudaria residência para Marabá, a fim de estudar.

 

Já planejara e combinara tudo. Com os professores Nilsa Brito Ribeiro e Carlos Henrique Lopes de Souza, coordenadora e vice-coordenador do campus de Marabá, respectivamente, e com o prefeito de Xinguara, Elviro Faria Arantes. Seríamos – eu e a Câmelha, minha mulher – cedidos à União, com ônus para o Município, para trabalhar na Universidade, em Marabá.

 

Era assessor técnico do Gabinete do Prefeito e acumulava o cargo de chefe de Gabinete, optando pela remuneração deste, que era maior. A Câmelha, servidora concursada, era minha secretária. Éramos recém-casados. Casáramos, na amada Igreja Presbiteriana do Brasil, em 16 de dezembro de 1995.

 

Por volta das 10 horas, após trabalhar desde as 7 na sala fechada de ar condicionado, saio – como faço todos os dias – até o átrio do prédio, onde há uma linda e acolhedora mangueira, que vi crescer ao longo dos anos. Vou tomar fôlego contemplando o jardim, como costumo dizer à secretária, minha mulher. Nascido e criado na roça, em meio às árvores da floresta, onde vivi até os 20 anos, amo contemplar a Natureza, que tão bem se expressa na beleza das árvores, dos animais, da amplidão dos céus.

 

Saindo, vejo na recepção – onde me demoro um pouco para conversar com a agente de portaria (a Jeonildes Dourado de Sousa) – um exemplar do jornal Correio do Tocantins, no qual leio o anúncio das inscrições para cargos de atividade-meio e atividade-fim do Ministério Público Federal (Procuradoria da República), com vagas para várias localidades do país, incluindo Marabá.

 

O encerramento das inscrições – diz o jornal – dar-se-á no dia seguinte, 26 de junho. Ato contínuo, telefono para Brasília e sou informado acerca dos cargos. Por não poder ler o edital, escolho o cargo pelo nome e, por conseguinte, opto pelo cargo de assistente administrativo. A funcionária que me atende pondera que há apenas uma vaga para esse cargo. Confiante, digo-lhe que não há problema, pois necessito apenas de uma vaga, ao que ela responde com uma risada.

 

Encerrado o expediente – trabalhávamos das 7 às 13 horas –, compro passagem e viajo, à noite, para Marabá, a fim de inscrever-me. Chegando a Marabá, faço a inscrição às pressas, sem tempo de ler o edital para me informar sobre os vencimentos e as atribuições do cargo. Não faz mal – pensava. Afinal, assistente administrativo tem, sem dúvida, atribuições administrativas, e os vencimentos do Ministério Público Federal não devem ser ruins. Para que me preocupar com edital, já que nem tempo teria para a sua leitura?

 

Grande decepção me esperava!

 

Chegada a data da prova, sou o primeiro a chegar ao portão da Universidade Federal do Pará – campus de Marabá, até porque estou sem relógio. Concurso realizado pelo Centro de Seleção e Promoção de Eventos (CESPE), da Universidade de Brasília. Prova dificílima. Meu segundo vestibular, sem dúvida.

 

Os dias e meses seguintes foram de expectativa. Considerava-me prejudicado porque, como fizera a prova sem relógio, precipitara-me pensando que o tempo se esgotara e, por isso – apressado –, entregara a prova antes do tempo. Mesmo assim, tinha certa confiança, pois achava muito difícil alguém ter-se saído melhor do que eu naquela prova.

 

Quando sai o resultado, a alegria: fora aprovado em primeiro lugar!

 

Março de 1997. Dia 25. Sai a minha convocação no Diário Oficial da União. Devo apresentar-me dentro de trinta dias, portando a documentação exigida, para tomar posse e daí, até trinta dias, entrar no exercício do cargo.

 

Agora a desilusão!

 

A descrição das atribuições do cargo, feita pelas Leis n.os 8.428, de 28 de maio de 1992, e 8.628, de 19 de fevereiro de 1993, e repetida – como não poderia deixar de ser – no edital do concurso (que não lera), diz com todas as letras: “atividades de caráter profissional de menor grau de complexidade e responsabilidade, envolvendo tarefas relacionadas com serviços de portaria, telefonia, reprografia, limpeza, conservação, copa e serviços diversos”.

 

Estupefação. Decepção no mais alto sentido da palavra. Eu, simplesmente, não acreditava no que via a minha frente... Minha esperança fora malograda!... Eu, que deixara de fazer as provas da Justiça Federal meses antes, em 1996, exatamente porque ficara em primeiro lugar no concurso do Ministério Público Federal, agora, não assumiria o cargo! Não sabia fazer serviços de copa, mas, ainda que soubera, não assumiria da mesma sorte, por uma questão de coerência. Estudara Contabilidade e agora estudava Direito. Não estudara culinária ou coisa semelhante.

 

Jamais vira coisa igual. Como entender aquilo? Entender-se-ia se ao menos o nome do cargo fosse agente de serviços gerais ou auxiliar operacional. Nunca algo que terminasse com a palavra “administrativo”.

 

Parecia brincadeira de mau gosto. Descrição semelhante vira somente na literatura. A crônica Pequenos anúncios, de Paulo Mendes Campos: “Precisa-se de empregada competente e amante da limpeza para cozinhar, lavar, copeirar, passar, engomar, cuidar das crianças, servir de enfermeira a senhor idoso paralítico, regar o jardim, fazer faxina diária e demais serviços leves.”

 

É mole, ou quer mais?       

 

Desisti. Entrou o Josias Pereira Falcão, meu colega do curso de Direito, que fora classificado em segundo lugar. Fiquei triste, porque estava passando por dificuldades financeiras. Não estava recebendo em dia da Prefeitura Municipal de Xinguara e a minha mulher estava grávida, mas desisti.

 

Graças a Deus, meses depois – agosto de 1997, para ser mais preciso – era novamente classificado em primeiro lugar em outro concurso público, o de técnico legislativo da Câmara Municipal de Marabá, cargo no qual seria empossado no dia 1.º de abril de 1998. Mais uma vez um dos meus colegas do curso de Direito (agora a Bethânia Coutinho) fora classificado em segundo lugar para o mesmo cargo. Para esse havia cinco vagas, não obstante o tempo viesse a mostrar depois que somente o primeiro classificado seria chamado.

 

Outra coisa. Com essa bênção viria uma provação. Estudava à tarde, das 14 às 18 horas, e, por isso, teria de interromper o curso por exatamente um ano, como de fato interrompi. A Câmara – atentando contra disposição expressa, embora mal redigida, da Lei Orgânica do Município –, negar-me-ia, como realmente negou, o direito de continuar o curso à tarde.

 

Mas essa já é outra história. Que também mostra como é a vida. E como são os homens.

 



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 00h08
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A Lei e a Consciência Ecológica

O ser humano, em nome de seu bem-estar, foi e continua sendo o maior predador da natureza. O mundo caminhava a passos largos rumo à destruição total por causa da irresponsabilidade do homem, que, como principal agente transformador, prejudica a natureza em nome do desenvolvimento. O emprego irresponsável da ciência e da tecnologia, como efeito da ganância manifesta em todos os sentidos e segmentos, sempre caracterizou as ações humanas em todo o mundo.

 

O Homo sapiens – embora mera insignificância ontológica se comparado com a dimensão da biodiversidade cósmica –, levado por seus instintos predatórios, hedonismo e concupiscência, era, como ainda é, um ser embevecido tendente a ver somente o próprio umbigo. O resultado não poderia ser outro que não a destruição de rios, mananciais e florestas, com a extinção de inúmeras espécies de animais e plantas, cruelmente aniquiladas.

 

Por tudo isso, vem em boa hora a busca verdadeira e quase desesperada de formação da consciência ecológica, que, não obstante o estágio em que nos encontramos, representa somente o começo. Apenas começamos a mudar de rumo. É muito, contudo, o que precisa ser feito pela preservação do planeta, acima de tudo, até como questão de sobrevivência. Não é balela nem exagero paraneico de ecologistas, é a realidade, que não poder ser ignorada.

 

A Constituição da República pôs como competência comum da União, Estados, Distrito Federal e Municípios a proteção do meio ambiente e o combate à poluição em qualquer de suas formas, bem como a preservação das florestas, da fauna e da flora. Estabeleceu, demais disso, que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, como bem essencial à sadia qualidade de vida, o qual deve ser defendido e preservado, conjuntamente pelo Poder Público e a coletividade, para as presentes e futuras gerações. Bonito, muito bonito, mas não basta por si só.

 

Muito boa é também nossa legislação infraconstitucional das três esferas de competência legislativa, federal, estadual e municipal. Mas não é só isso. É preciso cumprir o que está escrito, positivado na Constituição e nas leis. É necessária a efetividade, que demanda a consciência ecológica de todos, para cumprimento por convicção e não apenas por imposição estatal, à custa de cara e penosa vigilância. Ninguém vigia a todo o mundo o tempo todo, claro. Há, por conseguinte, ainda muita água para passar por baixo e por cima da ponte. “As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei”, já dizia com elegância Carlos Drummond de Andrade.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 12h40
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Justiça tardia, o péssimo exemplo do Supremo

Dia 17 de junho de 2011, fez 52 anos que foi protocolada no Supremo Tribunal Federal a Ação Cível Ordinária n.º 79, julgada pelo Plenário somente agora, dia 15 de março de 2012. Era o processo mais antigo em tramitação no tribunal. E o pior é que o caso começara bem antes, ou seja, em 1952, quando o Estado de Mato Grosso alienou terras públicas de forma irregular, por inobservância do que dizia a Constituição Federal de 1946, então vigente.

 

Pasmem! Para quem pensa que o Poder Judiciário é lento apenas no julgamento das ações de particulares, uma informação: a ação foi ajuizada pela União – pelo Governo Federal, para quem, porventura, ainda não entendeu. União, caro leitor! A União, meu caro jurisdicionado! E, como se isso não bastara, acrescente-se: o caso fora apurado por uma comissão parlamentar de inquérito do Senado Federal, concluída em 2 de julho de 1955.

 

O Supremo Tribunal Federal demorou mais de 52 anos para julgar improcedente uma ação que, em tudo e por tudo, deveria ter sido julgada procedente, se fora julgada em tempo razoável. Em face de fatos e mais fatos consumados, o tribunal foi obrigado a julgar improcedente, por causa da fática impossibilidade jurídica de desfazer os mais variados negócios jurídicos que seriam envolvidos pelo desfecho da lide, no caso de decisão pela procedência.  Haveria verdadeiro caos nos juízos e tribunais.

 

Parece ficção, brincadeira ou coisa que o valha, pois, de 1952 para 2012 são exatamente 60 anos, mas é verdade. Está tudo lá, escrito, na página oficial do Supremo Tribunal Federal, na rede mundial de computadores. O caso – sem exagero o digo – me faz emudecer, sem ter o que comentar. Dizer o quê? Sinceramente, nada – exatamente nada, coisa alguma – justifica tamanha demora, muito mais extensa do que muitas vidas. Milhões de pessoas nasceram, cresceram, envelheceram e morreram nesse período.

 

Puxa vida! Uma das muitas lições inesquecíveis de Rui Barbosa é que justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta. Toda a comunidade jurídica brasileira a conhece, pois Rui a deixou registrada na “Oração aos moços”, dirigida a bacharelandos da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, que, por rara felicidade, o escolheram para a derradeira aula.

 

Ah, não sei, não. Que diria, se ainda estivesse entre nós, ao ver tamanho despropósito o inexcedível Rui Barbosa? Logo ele, cuja atuação na maior parte de sua vida se deu, como advogado e político, exata e respectivamente perante o Supremo Tribunal Federal e o Senado da República! Teria ele, por certo, um infarto fulminante.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 13h30
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O bem-estar e o hífen

Um grande amigo manifestou por “e-mail” dúvida sobre pôr ou não pôr o hífen na palavra “bem-estar”, pois, consultando as novas regras ortográficas, não conseguiu identificar o devido enquadramento. Respondi a ele que continuará com hífen, como era antes do Acordo de Ortográfico da Língua Portuguesa, de 16 de dezembro de 1990. E como, por falta de espaço e de tempo, no entanto, não lhe expliquei na ocasião o enquadramento, o faço nesta crônica.

 

“Bem-estar” é um substantivo composto, masculino, singular, cujo plural é “bem-estares”, que continua sendo escrito com hífen, após o Acordo, não só por enquadramento em uma das regras, mas por inclusão expressa da dita palavra, que é uma das muitas que constam expressamente a título de exemplos postos pelo texto do Acordo.

 

O texto do Acordo, para quem não sabe, foi organizado em 21 tópicos ou divisões chamadas tecnicamente de base e numeradas com algarismos romanos. Assim, vai da Base I, que tem por título “Do alfabeto e dos nomes próprios estrangeiros e seus derivados”, à Base XXI, cujo título é “Das assinaturas e firmas”. E a disciplina do emprego do hífen ocupa três dessas bases, a saber, da Base XV à Base XVII.

 

“Bem-estar” tem a grafia regulada pela Base XV – “Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares” –, que se divide em sete partes de numeração ordinal. “Emprega-se o hífen nos compostos com os advérbios ‘bem’ e ‘mal’, quando estes formam com o elemento que se lhes segue uma unidade sintagmática e semântica e tal elemento começa por vogal ou ‘h’”, diz a quarta dessas divisões. Após a regra, vem a ressalva de que o advérbio “bem”, ao contrário de “mal”, pode não se aglutinar com palavras começadas por consoante. Por fim, dá alguns exemplos das várias situações, dentre os quais se acha expressamente a palavra “bem-estar”.

 

O composto “bem-estar”, como se vê, é formado por dois elementos, o advérbio “bem” e o verbo “estar”, que deixam de ser duas palavras simples e passam a formar uma só palavra composta, ou seja, unidade sintagmática, com significado próprio, quer dizer unidade semântica, diferente do significado original delas. Eis a razão do hífen.

 

Nem tudo, porém, referente ao emprego do hífen ficou assim tão claro no Acordo, motivo por que discordo veementemente de suas regras, embora as respeite como lei que são. Mexeram onde não precisava mexer e ficou ruim. E, demais disso, a interpretação que a Academia Brasileira de Letras deu ao texto do Acordo, para elaborar o novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, “data venia”, piorou a situação. A Academia, interpretando, retirou o hífen de muitas palavras das quais não deveria retirar.

 

Tal qual o Supremo Tribunal Federal é a autoridade máxima na interpretação da Constituição da República, a Academia Brasileira de Letras é a autoridade máxima em relação ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e à interpretação de acordos sobre a língua. Isso, contudo, não nos tira o direito e a legitimidade de criticar, técnica, respeitosa e fundamentadamente, as decisões de ambas as instituições sobre esses assuntos.

 

A Academia, com sua interpretação do número 6.º da Base XV, retirou, por exemplo, o hífen dos compostos de três elementos, só o admitindo nas exceções expressamente previstas no texto do Acordo, que são: “água-de-colônia”, “arco-da-velha”, “cor-de-rosa”, “mais-que-perfeito” e “pé-de-meia”. Fora esses casos, palavras compostas de três ou mais elementos ligadas por hífen somente as designativas de espécies botânicas e zoológicas, conforme a regra do número 3.º, como, por exemplo: fava-de-santo-inácio, castanha-do-pará, mico-leão-dourado, andorinha-do-mar. Também alguns topônimos expressamente previstos no texto do Acordo, como, por exemplo: Trás-os-Montes.

 

Não vejo razão, por exemplo, para se escrever sem hífen o substantivo composto “dia-a-dia”, que assim se transforma na locução substantiva “dia a dia”, com a mesma grafia da locução adverbial de tempo “dia a dia”, de forma que somente o contexto as diferencia, tal qual passou a acontecer com o substantivo composto “tomara-que-caia”, que virou locução substantiva “tomara que caia”, sem hífen, bem como com tantos outros casos semelhantes nos quais não se deveria ter mexido. Penso, sinceramente, que não era necessário fazer o que fizeram nem em relação ao hífen nem ao trema. Teria sido muito melhor deixar como estava.

 

O Acordo, como já disse acima e em outras ocasiões, é lei e, como tal, de observância obrigatória. Por enquanto, é facultativo desde 1.º de janeiro de 2009, mas depois de 31 de dezembro de 2012 será obrigatório. Embora fosse facultativo fazê-lo, como continua sendo até agora, aderi às novas regras desde as primeiras horas de 1.º de janeiro de 2009. Isso, contudo, nunca significou concordar com elas. Entendê-las e empregá-las por ordenação estatal é uma coisa, concordar com elas é outra bem diferente.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 16h10
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Ministério dos Problemas sem Ministério

Sou fã do cronista Carlos Heitor Cony, já o disse e escrevi muitas vezes, nos meus bate-papos literários e nas crônicas que escrevo. Sim, sou admirador do Cony e de tantos outros cronistas, vivos e mortos. Daí o motivo por que visito diariamente a página da Academia Brasileira de Letras, na rede mundial de computadores. Também tenho inúmeros livros de crônicas, do Cony e de muitos outros cronistas da mesma estirpe.

 

Pois bem. Foi da crônica “Sonho de consumo”, de Cony, lida no sítio da Academia, que, como gosto de fazer, tirei o título da minha crônica de hoje, como aí acima se vê: Ministério dos Problemas sem Ministério (MPM). É uma sugestão do cronista carioca à presidente (detesto a forma presidenta) da República, dona Dilma: criar o ministério e, com ele, agraciar Tiririca. Hum, que interessante! Gostei da ideia e pensei logo em algo similar aqui, para nós, afinal Marabá tem o direito e o dever de estar sempre na vanguarda. Claro!

 

Meu medo (aliás, medo, não: receio, mero receio), como contribuinte e cidadão marabaense, é que um dia um alcaide nosso qualquer fique sabendo da sugestão conyana e aí, pumba! Vai que – tenha criado ou não muitas secretarias municipais, com atribuições parecidas com as desse ministério ou não, pois isso não vem ao caso – ele resolva criar a Secretaria Municipal de Assuntos sem Secretaria (Semas) e, com ela, fazer um mimo ao nosso Tibirica, político marabaense que também é artista. A mão e a luva, claro.

 

Não que eu tenha alguma coisa contra o Tibirica, não tenho. Meu receio e sérias preocupações no caso têm razões puramente financeiras, não são nem orçamentário-financeiras. São apenas financeiras, a dotação não é problema, a gente dá um jeito na hora nesse probleminha técnico. Basta, na mesma lei ou até mesmo em lei posterior, como sói acontecer, criar a respectiva dotação orçamentária – com código, denominação e expressão monetária, claro –, para suportar as despesas (aliás, suportar, não: custear é a palavra técnica ideal para o caso).

 

Aí já se viu: apenas mais um torneira, se com ou sem ralo não importa, com ou sem Tibirica. Uma coisa são os recursos orçamentários, a existência de dotação, que é questão meramente técnica; outra coisa bem diferente são os recursos financeiros, a existência ou não e disponbilidade do dinheiro, dos cum quibus, porque isso sobra sempre para um indivíduo, não raro muito simplório, chamado contribuinte. É ele e somente ele quem sempre paga o pato, a galinha ou seja que bicho for, de Rui Barbosa ou não.

 

O leitor, evidentemente, poderia dizer que não há motivo para preocupações, porque um prefeito assim e o Tibirica não rezariam pela mesma cartilha política. Sei lá, isso nada garante. Primeiro, o problema não é o Tibirica, até porque, conhecendo-o como o conheço, penso que ele não toparia, mas o gestor poderia lançar mão de outro político, amigo ou não. Segundo, em política se vê de tudo, ainda mais em ano de eleições. Os bois ficam voando sobre nossa cabeça e nós, ingenuamente, pensamos e dizemos que são pombos. Terceiro, a indubitável capacidade artística do Tibirica ficaria ociosa. Não, não dá! Estou brincando, mas é melhor a gente nem brincar com isso.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 20h07
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Tempos malucos, mas bons

Morei em Xinguara, de 20 de dezembro de 1980 a 11 de novembro de 1996. Tempos bons, de que tenho muita saudade, a despeito de terem sido tempos de sofrimento também. Tempos malucos da minha mocidade, que a cada dia ficam mais distantes e não voltarão jamais. Sim, tempos malucos, de muitos erros e acertos, mas tempos bons. É como diz o meu amigo Vieira, na sua profunda filosofia de botequim: “A gente era triste, mas era feliz.”

 

Dentre os meus amigos da época, merece realce Liberato Diniz Barroso, até hoje titular do conceituadíssimo escritório contábil LDB Contabilidade e Serviços, de Belém, então contador da Prefeitura Municipal de Xinguara. Ele, por brincadeira, me chamava e ainda me chama de Valdinar Mendonça, como eu também o chamo de Liberato Mendonça. Brincadeira nossa, por causa do amigo comum Itamar Rodrigues Mendonça, primeiro prefeito de Xinguara.

 

Pois bem. Vejo que mais gente, além de mim, sente saudade daqueles tempos. Que bom! Hoje, 21 de fevereiro de 2012, fuçando meu perfil no Facebook, encontrei esta mensagem do Liberato, postada dia 22 de fevereiro de 2011, ou seja, um ano atrás:

 

“Valdinar Mendonça:

 

Todas as vezes que eu vejo a tua foto, me recordo daqueles tempos (hoje malucos) de Xinguara. Tempos de irresponsabilidade social onde a palavra era frequentemente molhada por baco. Tempo bom, porém deve ficar no lugar dele, no passado. Recebi meu diploma de especialista em ciências forenses e coloco meus conhecimentos à tua disposição e daqueles que achares que possam vir a se interessar. Um grande abraço.

 

Liberato Barroso”

 

Puxa vida, viajei no tempo e vivi cada momento! Que saudade, que lembranças! Liberato lembra aí que “a palavra era frequentemente molhada por baco”. É verdade, Baco! Era o tempo da cachaça. Mas não somente da cachaça, ainda bem. Incrível, quando não estava trabalhando nem bebendo, estava lendo. Como lembrou recentemente, em comentário do Facebook, o Astalayr Martins, outro amigo de então, eu sempre andava com um bom livro na mão ou debaixo do braço. Foi isso que me livrou da sarjeta. O apego quase exagerado aos livros e à leitura foi o instrumento terreno de Deus para me salvar! Eu lia, lia muito e era competente em tudo que fazia. Isso fez a diferença.

 

O tempo passou inexoravelmente, mas as boas amizades ficaram e continuam. Liberato Diniz Barroso, Nelson Luiz Pereira Cunha, Ney José Pereira Cunha, Roberto Wagner de Jesus do Rosário, Paulo Antônio Dutra, Luiz Sérgio Dutra, Itamar Rodrigues Mendonça, Astalayr Martins, João Carlos Rodrigues e tantos outros, ainda que distantes fisicamente, são exemplos das amizades daquela época. Eu os guardarei na mente e no coração, sempre.

 

Caramba! “A gente era triste, mas era feliz.” Ganhei o dia, relendo a mensagem do Liberato e escrevendo esta crônica. Prometo, por isso, a mim mesmo que ela haverá de ser perenizada em livro. Grande Vieira! Grande Liberato Mendonça!



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 15h45
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Sem título e, talvez, sem sentido

“Marabá, hoje, 20 de fevereiro de 2012, à tarde, estava extremamente agradável: tempo nublado, brisa muito gostosa, sem chuva. Amei passear a pé pela VP-8 até chegar ao terminal rodoviário, na Folha 32, Nova Marabá, após alguns minutos na livraria da Big Ben. É difícil um dia de clima gostoso como o da tarde de hoje. Amei!”, escrevi e publiquei no Facebook, a coqueluche do momento.

 

A moda agora é esta (o modo também?): registrar localização, sentimentos e que tais no Facebook, no Twitter, e assim por diante. Isso é muito bom, embora eu ainda não tivesse (na realidade, ainda não tenha mesmo) pegado o hábito. É bom, sim. Serve como meio de comunicação, principalmente, mas não somente isso. Esses registros poderão, com efeito, ter mil e uma utilidades, inclusivamente em investigações criminais.

 

O problema, pelos menos eu vejo assim, é que muitas pessoas, talvez milhões hoje (não digo muitíssimas, porque há controvérsias quanto a esse superlativo de muito) não sabem ou não têm o que escrever, quiçá ainda a junção das duas coisas, e por isso escrevem baboseiras, tolices, coisas sem sentido e por aí afora. Talvez o que estou fazendo agora, claro. Penso que não, sei que muitos também pensarão, mas muitos outros (a maioria, quem sabe?) pensarão que sim, estou escrevendo besteiras. Fazer o quê? A vida e as coisas são assim.

 

A ciência e a tecnologia, assustadoramente, estão sempre a serviço e a desserviço do ser humano, depende do uso ou empreso que se lhes dê. Como já se escreveu – com muita sabedoria, penso eu –  “o mesmo cubo pode servir de pretexto para efeitos de sombra e de luz”. Quem quiser que escolha o serviço ou o desserviço e, evidentemente, arque com o ônus ou o bônus, assuma as consequências das suas decisões. A vida é bela é por isso.

 

Fecho a cronica, a que, propositadamente e exatamente por tudo isso, intitulei “Sem Título e, Talvez, Sem Sentido”. E a fecho com o comentário que postei, faz poucos minutos, no Facebook: “Lendo, desde o início da folga de carnaval, ‘Teogonia’ e ‘Trabalhos e Dias’, de Hesíodo, tradução e comentários de Sueli Maria Regino. Muito bom ler os clássicos gregos, sempre gostei. Ontem, à noite, comecei a ler também ‘O Quinto Evangelho: A Mensagem do Cristo’, o evangelho de Tomé, traduação e comentários de Huberto Rohden. Muito bom também. Depende do gosto, claro.”

 

Aliás, não, não. Vou fechar com uma passagem do Evangelho de Tomé, outro nome da obra O Quinto Evangelho: A Mensagem do Cristo: “Miserável o corpo que depende de outro corpo, e miserável a alma que depende desses dois corpos” (Evangelho de Tomé, 87). Eu, hein! Que será que ele quis dizer com isso? Miseráveis são todos os humanos, esperitualmente falando? Não digo que sim nem que não. O tradutor explica nos seus comentários.



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 12h15
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As mentiras e aleivosias do criminoso

Está no BOL Notícias, leio e me arrepio de raiva: "Quando a polícia invadiu, a Eloá fez menção de levantar e eu, sem pensar, atirei. Foi tudo muito rápido. Pensei que ela fosse pegar minha arma", essa afirmação absurda, covarde e mentirosa é de Lindemberg Alves, ao depor no Tribunal do Júri, sob a acusação de haver cometido vários crimes, em outubro de 2008, dentre eles o homicídio contra a da vítima Eloá Pimentel, que teve a vida absurda e covardemente ceifada aos 15 anos de idade. "Não posso dizer se atirei ou não na Nayara. Eu não me lembro", diz o infeliz, mais à frente, referindo-se à outra adolescente, vítima de tentativa de homicídio.

 

Puxa vida! Sou advogado e, embora milite muito pouco nessa área, tenho simpatia pela advocacia criminal, mas não consigo evitar sentimentos agressivos dos mais primitivos, ao ler tais declarações. O que mais me afronta e me aborrece profundamente em todos ou quase todos os processos criminais de homicídio são as mentiras do criminoso assacadas contra ou, no mínimo, em relação à vítima. O criminoso, em nome de sua defesa, não raro, vilipendia e atenta contra a memória da vítima ao depor nas várias fases processuais. É a covardia da covardia, é a imoralidade da imoralidade: o homicida nunca ou quase nunca assume suas responsabilidades, seu instinto criminoso, sua covardia e ainda vilipendia a memória da vítima.

 

Sou contra também – sempre fui – as firulas, trejeitos e salamaleques da defesa, quando, na busca de absolvição a qualquer custo, geralmente com mentiras e outros artifícios igualmente condenáveis, faz de tudo para transformar monstro em santo ou outro ser inofensivo e benfazejo. Mas o pior não é isso, porque forçoso é reconhecer que, ante o princípio da ampla defesa, o acusado pode mentir e seu defensor deve fazer de tudo ao seu alcance para defendê-lo. O pior, o mais acintoso e mais cruel são as decisões dos jurados e julgadores togados que, embevecidos e insensíveis à dor da vítima, da sua família e da sociedade, dão crédito a tais aleivosias e absolvem a quem deveriam condenar.

 

Minha ojeriza a tais procedimentos é antiga e remonta à vida de antes de ser advogado. Como cidadão, como homem e, acima de tudo, como ser humano, sempre me senti afrontado com coisas como essa feita por Lindemberg. Registro, aliás, que escrevo em jornais desde setembro de 1993, nos saudosos tempos de Xinguara, e meu primeiro artigo de jornal, intitulado “Tribunal do júri: quase sempre um tribunal de injustiças”, foi sobre o assunto.

 

Os julgadores, leigos e togados, não devem jamais ceder às mentiras do criminoso e ao elogio fácil da defesa. Se o Brasil fosse o país sério que não é, Lindemberg Alves seria condenado à morte e executado. Ninguém tenha dúvida disso. Espero, portanto, que ele, ao menos, seja condenado a uns cem anos de reclusão e cumpra a pena. Até porque o tempo de cumprimento das penas privativas de liberdade não pode ser superior a trinta anos, como diz o art. 75 do Código Penal. Ninguém se esqueça disso.  



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 21h43
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Sonho literário

Já estão escritos meus livros de crônicas De pé por causa da palavra e A despedida do palacete, que pretendo publicar logo. Cada um terá 50 e poucas crônicas e um pouco mais do que 120 páginas. Meu projeto é publicar um deles ainda este ano e o outro em 2013, talvez pela Scortecci Editora, de São Paulo. Também tenho em mente publicar um livro só de crônicas escritas para a revista “Foco Carajás”, da qual sou colunista por especial benevolência do editor e amigo Laércio Ribeiro, e outro com algumas que, publicadas nos meus blogues, não saíram nos jornais.

 

De pé por causa da palavra deverá sair primeiro, ainda em 2012. O prefácio está sendo escrito por Fabricio Possebon e as orelhas, por Patrick Roberto Carvalho. Fabricio, professor da Universidade Federal da Paraíba, tem bacharelado em Letras, mestrado em Letras e doutorado em Letras; o bacharelado e o mestrado cursados na Universidade de São Paulo, o doutorado, na Universidade Federal da Paraíba. Patrick Roberto, jornalista graduado pela Universidade Católica de Brasília, é diretor de redação do Correio do Tocantins.

 

A despedida do palacete quero lançar em 2013. O prefácio será de Gutemberg Armando Diniz Guerra e as orelhas, de Innocêncio de Jesus Viégas. Gutemberg, professor da Universidade Federal do Pará, além de cronista, é agrônomo e tem mestrado, doutorado e pós-doutorado. Cursou o mestrado pela Universidade Federal do Pará, o doutorado pela École des Hautes Études em Sciences Sociales, de Paris, e o pós-doutorado pela Columbia University, de Nova Iorque. Innocêncio, economista e teólogo, é cronista e membro da Academia Maçônica de Letras do Distrito Federal.

 

Tenho, por conseguinte, a convicção de que meus originais de ambos os livros estão mais do que em boas mãos, tanto para o prefaciar quanto para o orelhar – o verbo orelhar, para quem ainda não sabe, existe, tanto com essa quanto com outras acepções ou significados –, de forma que serão bem apresentados ao leitor. Sinceramente, é honra demais para mim!

 

Conto, por tudo isso, com que tais obras tenham boa aceitação de público. É esperar para conferir. E, se não houver essa boa aceitação, ninguém tenha dúvida, a culpa será tão somente do escritor. Não duvido nem um pouco de que isso aconteça. Ah, coitado! Quem manda escrever baboseiras? Brincadeiras, ironias e modéstia à parte, há, sim, boas crônicas em ambos os livros, claro. Até porque não teria sentido nem razão alguma para que doutores stricto sensu e pessoas outras de tamanha competência perdessem tempo prefaciando e orelhando obras sem valor literário algum.

 

É isso. Estou animado com meus livros e com muita vontade de vê-los a circular. Que haja público e leitores com a mesma avidez! Se não houver, sinceramente, não estarei nem aí. Fiz a minha parte. O ser humano, homem ou mulher, é do tamanho dos seus sonhos. Eu creio nisso e estou chegando à idade de dar bananas para todo o mundo. Verdade!



Escrito por Dr. Valdinar M. de Souza às 14h21
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